Arquivo foi colocado à venda durante a madrugada em um site ilegal usado para comercializar bases vazadas. Base de dados ofertada inclui CPF, endereços, religião e orientação sexual de militantes da legenda.

Um arquivo com dados pessoais de 537 mil filiados ao Partido dos Trabalhadores (PT) foi anunciado para venda na madrugada desta terça-feira (10) em um site ilegal usado para comercializar bases vazadas. O anúncio associa o material ao domínio pt.org.br e exibe uma amostra com 25 registros para sustentar a oferta.
No texto do anúncio, o autor usa um pseudônimo e diz ter “dumpado” as informações, expressão comum nesse tipo de ambiente para indicar a extração de um banco completo. A postagem também afirma que “apenas três cópias” seriam vendidas, estratégia recorrente para inflar o valor do arquivo e controlar a circulação inicial.
O que a amostra diz sobre o conteúdo do banco
A planilha apresentada como “prova” lista dezenas de colunas. Entre elas, aparecem dados eleitorais (título, zona e seção), identificação civil (CPF, RG e órgão emissor), filiação (nome do pai e da mãe), data de nascimento e endereço completo (incluindo número, complemento e CEP), além de telefones e e-mail.
O cabeçalho também menciona campos de perfil, como profissão, religião, etnia, grau de instrução e faixa salarial. E vai além: inclui colunas que indicam identidade de gênero e orientação sexual, além de itens como “frequência de acesso à internet” e informações internas do partido, como cargos e setoriais de atuação. A Fórum não reproduz dados individuais exibidos na amostra para evitar amplificação de dano.
Violação da LGPD e risco de perfilamento político
A presença de campos como orientação sexual, identidade de gênero e religião, quando vinculados a CPF, endereço e telefone, configura um cenário de alta gravidade sob a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Em termos práticos, o pacote descrito permite perfilamento político e social e abre espaço para golpes por ligação e mensagem, engenharia social, tentativas de se passar por instituições e até intimidação direcionada, por tratar de filiação partidária.
O que está em jogo agora
O PT é maior partido de esquerda da América Latina e a promessa de venda, se confirmada, não é apenas mais um vazamento “de cadastro”. O cabeçalho exibido na amostra descreve um conjunto de campos que, reunidos, permitem identificação, localização e contato direto com pessoas específicas, um tipo de exposição que costuma alimentar fraudes e assédio dirigido.
Site derrubado, reaparece e segue operando
O anúncio circula no BreachForums, comunidade ligada à venda e troca de dados roubados que opera em dinâmica de “derruba e volta”. O fórum ganhou projeção após a derrubada do RaidForums, apreendido em 2022 em uma operação anunciada pelo Departamento de Justiça dos EUA.
Em 2023, o Departamento de Justiça dos EUA anunciou a prisão do fundador do BreachForums e uma operação de “disrupção” que tirou o site do ar naquele momento.
Em maio de 2024, empresas de segurança registraram nova derrubada, com a exibição de aviso de controle por forças policiais.
Essa sequência ajuda a explicar por que anúncios como o que menciona o PT continuam aparecendo: quando um endereço cai, o ecossistema costuma migrar para espelhos e novas páginas, mantendo a oferta de bases em circulação.
O que ainda não está comprovado
A existência do anúncio, a promessa de volume e a lista de campos exibidos na amostra. Isso, por si só, não comprova a origem do arquivo nem confirma que os dados tenham sido extraídos diretamente de sistemas vinculados ao domínio citado.
Casos assim costumam envolver três cenários: invasão real, recombinação de bases antigas vendidas como “novas” ou amostra verdadeira usada para valorizar um pacote maior. A verificação depende de checagem técnica e validação controlada de registros, sem exposição pública dos dados.
Publicado originalmente por: Revista Fórum
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