Ministro das Relações Exteriores apresenta a Washington caminho concreto para a paz. Mídia ocidental esconde. Condição de Teerã: frear o colonialismo de Israel e reconhecer necessidade de justiça para a Palestina. Momento é decisivo: Trump quer cessar conflitos?

Foto: Fatemeh Bahrami/Anadolu via Getty Images

Por Jeffrey D. Sachs Sybil Fares, no Other News | Tradução: Rôney Rodrigues

O Oriente Médio encontra-se numa encruzilhada entre a guerra sem fim e uma paz abrangente. Um arcabouço para a paz existe. Os Estados Unidos finalmente o abraçarão?

A história, por vezes, oferece momentos em que a verdade sobre um conflito é expressa com tal clareza que se torna impossível ignorá-la. O discurso do ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, em 7 de fevereiro, em Doha, no Catar, deve revelar-se um desses momentos. Em declarações relevantes e construtivas, ele respondeu ao apelo dos Estados Unidos por negociações abrangentes e apresentou uma proposta consistente para a paz em todo o Oriente Médio.

Na semana passada, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, defendeu negociações abrangentes: “Se os iranianos quiserem conversar, estamos prontos.” Ele propôs que as negociações incluam a questão nuclear, as capacidades militares do Irã e seu apoio a grupos proxy em toda a região. À primeira vista, trata-se de uma proposta séria e construtiva. As crises de segurança no Oriente Médio estão interligadas, e a diplomacia que isola as questões nucleares das dinâmicas regionais mais amplas dificilmente será duradoura.

Em 7 de fevereiro, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Araghchi, respondeu à proposta dos Estados Unidos por uma paz abrangente. Em seu discurso no Fórum da Al Jazeera, ele abordou a causa raiz da instabilidade regional — “A Palestina… é a questão definidora da justiça na Ásia Ocidental e além” — e apresentou um caminho a seguir.

A afirmação do chanceler está correta. O fracasso em resolver a questão do Estado palestino tem, de fato, alimentado todos os grandes conflitos regionais desde 1948. As guerras árabe-israelenses, a ascensão de militâncias anti-Israel, a polarização regional e os ciclos recorrentes de violência derivam da incapacidade de criar um Estado da Palestina ao lado do Estado de Israel. Gaza representa o capítulo mais devastador desse conflito, no qual a brutal ocupação israelense da Palestina foi seguida pelo ataque do Hamas a Israel, em 7 de outubro de 2023, e, posteriormente, pelo genocídio cometido por Israel contra o povo de Gaza.

Em seu discurso, Araghchi condenou o projeto expansionista de Israel, “levado adiante sob a bandeira da segurança”. Ele alertou para a anexação da Cisjordânia, defendida reiteradamente por autoridades do governo israelense, como o ministro da Segurança Nacional, Ben Gvir, e para a qual o Knesset já aprovou uma moção.

Araghchi também destacou outra dimensão fundamental da estratégia israelense: a busca por supremacia militar permanente em toda a região. Segundo ele, o projeto expansionista de Israel exige que “os países vizinhos sejam enfraquecidos — militar, tecnológica, econômica e socialmente — para que o regime israelense mantenha permanentemente a vantagem”. Trata-se, de fato, da doutrina Clean Break do primeiro-ministro Netanyahu, formulada há 30 anos. Ela tem sido amplamente apoiada pelos Estados Unidos, por meio de 100 bilhões de dólares em assistência militar a Israel desde 2000, de cobertura diplomática na ONU por meio de vetos reiterados e da constante rejeição, por parte de Washington, de medidas de responsabilização pelas violações israelenses do direito internacional humanitário.

A impunidade de Israel desestabilizou a região, alimentando corridas armamentistas, guerras por procuração e ciclos de vingança. Também corroeu o que resta da ordem jurídica internacional. O abuso do direito internacional por parte dos Estados Unidos e de Israel, com boa parte da Europa permanecendo em silêncio, enfraqueceu gravemente a Carta da ONU, deixando as Nações Unidas à beira do colapso.

Nas considerações finais de seu discurso, ele ofereceu aos Estados Unidos uma solução política e um caminho adiante. “O caminho para a estabilidade é claro: justiça para a Palestina, responsabilização pelos crimes, fim da ocupação e do apartheid, e uma ordem regional construída sobre soberania, igualdade e cooperação. Se o mundo quer paz, deve parar de recompensar a agressão. Se o mundo quer estabilidade, deve deixar de viabilizar o expansionismo.”

Trata-se de uma resposta válida e construtiva ao chamado de Rubio por uma diplomacia abrangente.

Esse arcabouço poderia enfrentar todas as dimensões interligadas do conflito regional. O fim da expansão e da ocupação israelense da Palestina, com o retorno de Israel às fronteiras de 4 de junho de 1967, encerraria o financiamento externo e o armamento de grupos por procuração na região. A criação de um Estado palestino ao lado do Estado de Israel fortaleceria a segurança de Israel e de seus vizinhos. Um acordo nuclear renovado com o Irã, limitando estritamente suas atividades nucleares a fins pacíficos e acompanhado do levantamento das sanções dos EUA e da União Europeia, acrescentaria um pilar crucial à estabilidade regional. O Irã já concordara com esse marco nuclear há uma década, no Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), adotado pelo Conselho de Segurança da ONU na Resolução 2231. Foram os Estados Unidos, durante o primeiro mandato de Trump, e não o Irã, que se retiraram do acordo.

Uma paz abrangente reflete os fundamentos da doutrina moderna de segurança coletiva, incluindo a própria Carta das Nações Unidas. Uma paz duradoura exige o reconhecimento mútuo da soberania, da integridade territorial e garantias de segurança iguais para todos os Estados.

A segurança regional é responsabilidade compartilhada de todos os Estados da região, e cada um deles enfrenta uma obrigação histórica. Essa proposta de paz abrangente não é nova; ela vem sendo defendida há décadas pela Organização de Cooperação Islâmica (57 países de maioria muçulmana) e pela Liga dos Estados Árabes (22 países árabes). Desde a Iniciativa de Paz Árabe de 2002, todos esses países têm endossado, anualmente, o princípio de terra por paz. Os principais Estados árabes e islâmicos, aliados dos Estados Unidos, desempenharam papel crucial na facilitação da mais recente rodada de negociações entre EUA e Irã, realizada em Omã. Além disso, a Arábia Saudita deixou claro aos EUA que normalizará relações com Israel apenas mediante a criação de um Estado palestino.

Os Estados Unidos enfrentam um momento decisivo. Querem realmente a paz ou pretendem seguir o extremismo de Israel? Durante décadas, os EUA seguiram cegamente objetivos israelenses equivocados. Pressões políticas internas, poderosas redes de lobby, erros de cálculo estratégicos e talvez até um pouco de chantagem à espreita nos arquivos Epstein (quem sabe?) combinaram-se para subordinar a diplomacia americana às ambições regionais de Israel.

A subserviência dos EUA a Israel não serve aos interesses americanos. Ela arrastou os Estados Unidos para repetidas guerras regionais, minou a confiança global na política externa norte-americana e enfraqueceu a ordem jurídica internacional que o próprio Washington ajudou a construir após 1945.

Uma paz abrangente oferece aos Estados Unidos uma rara oportunidade de corrigir o rumo. Ao negociar uma paz regional ampla, fundamentada no direito internacional, os EUA poderiam recuperar uma diplomacia autêntica e contribuir para a construção de uma arquitetura de segurança regional estável que beneficie todas as partes, inclusive Israel e Palestina.

O Oriente Médio encontra-se numa encruzilhada entre a guerra interminável e uma paz abrangente. O arcabouço para a paz existe. Ele exige, antes de tudo, a criação de um Estado palestino, garantias de segurança para Israel e para o restante da região, um acordo nuclear pacífico que restabeleça o entendimento básico adotado pela ONU há uma década, o levantamento das sanções econômicas, a aplicação imparcial do direito internacional e uma arquitetura diplomática que substitua a força militar pela cooperação em segurança. O mundo deve unir-se em torno de um marco abrangente e aproveitar esta oportunidade histórica para alcançar a paz regional.

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 Publicado originalmente por: OUTRAS PALAVRAS

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