Sem luta anticapitalista não há possibilidade do fim do patriarcado, do racismo, da xenofobia, da LGBTfobia.

Jean-Michel Basquiat

Epstein, Klein, Orelha, transplante de órgãos e escala 6×1

por Elenira Vilela

É impossível enfrentar o capitalismo sem enfrentar a misoginia e o racismo!

O mundo está cada dia mais impressionado com o chamado escândalo de Epstein. Se você mora em Marte: é um escândalo em que foram divulgados 3 milhões de páginas – de um arquivo que contém 6 – e descobrimos detalhes de um esquema gigantesco de tráfico humano e exploração sexual de crianças e adolescentes que incluem canibalismo de bebês, várias formas de tortura e assassinato que envolvia centenas de bilionários, celebridades, cientistas e políticos dos EUA, da Europa e até do Brasil e estimam-se que até 2 mil meninas com idades entre 10 e 17 anos exploradas sexualmente e torturadas. Dois perfis identitários chamam a atenção: os homens brancos, de meia idade ou velhos do lado dos exploradores e pedófilos e meninas, brancas, crianças e adolescentes pobres como suas vítimas.

Já Klein é o sobrenome de Samuel Klein e seu filho Saul Klein, bilionários brasileiros (Samuel  era natural da Polônia, viveu na Alemanha,  mas se tornou bilionário no Brasil), o pai, já falecido, foi fundador das Casas Bahia e seu filho que segundo uma reportagem de 2021 da Pública e que comandaram um esquema de pedofilia e exploração sexual de meninas que lembra muito o de Epstein, apesar de ter proporções muito menores, que envolvia crianças ainda mais novas, com 9 anos, mas atingiu algumas dezenas de meninas, talvez tenha alcançado as centenas, na cidade de São Caetano do Sul.

Tanto Jeffrey Epstein como Samuel Klein eram sionistas. Os dois já estão mortos, o primeiro morreu na cadeia, supostamente de suicídio, o outro viveu muito bem seus mais de 90 anos e morreu de causas naturais. Ambos os escândalos demonstram como o patriarcado e o capitalismo são inseparáveis do ponto de vista factual (existirá um bilionário que não seja pedófilo? O poder não os transforma em pessoas que veem outros humanos como coisas, especialmente crianças, mulheres, não brancos?). E precisam ser inseparáveis também do ponto de vista analítico e organizativo.

E o Orelha? Para quem voltou de Marte também: cão comunitário[1], que vivia em um dos bairros mais caros e frequentado por membros da classe alta e ricos em Florianópolis assassinado por adolescentes filhos dessa mesma classe violentamente. Um dos muitos exemplos que demonstram que toda a violência nas nossas cidades está associada à masculinidade hegemônica, onde sejam as vítimas outros homens, animais, mulheres ou crianças, os praticantes dela, seja no canibalismo, na violência sexual ou na tortura de animais, a predominância dos homens é absolutamente brutal (mais de 90% de todos os homicídios em todo o mundo é cometido por homens, só pra dar um dado. E algumas estimativas chegam a afirmar que esse número pode passar de 95%).

Essa violência masculina é engrenagem fundamental do capitalismo para seguir explorando, em todas as pontas e cada homem que a pratica não é comunista, nem socialista, nem humanista, é motor de uma das engrenagens mais fundamentais do capitalismo.

Esse título aparentemente maluco cita também transplantes, o que os transplantes tem com isso? A outra face estruturante do capitalismo no Brasil e em boa parte do mundo que é o racismo. O Brasil tem um dos programas de transplantes mais eficazes e organizados do mundo (viva o SUS), mas ele explicita uma das estatísticas que demonstra a crueldade racista estrutural no Brasil. Novamente perfis identitários saltam aos olhos, segundo estudo IPEA publicado em 2011, mas que infelizmente não temos razões para acreditar que tenha sido alterado: o perfil dos potenciais doadores (pessoas que tem mortalidade ou morbidades por causas externas não naturais) é de 58% de não brancos (majoritariamente negros, sendo 45% do total de pardos e 7% de pretos) e majoritariamente homens[2] (83%), também se sabe que as mortes por causas externas atinge mais a população jovem, 73% dos óbitos segundo estudo de 2025 da Fiocruz; já os receptores são homens (variando de 50 – pâncreas a 75% – coração), brancos (variando de 56  – coração a 93% – pâncreas).

Chama atenção o fato de que em vários casos, a diferença racial pode ter impactos genéticos e dificulta que um órgão de uma pessoa negra possa ser doado a uma pessoa branca e também que há grandes demandas de pessoas negras por órgãos, mas o sistema racista de maneira estrutural não permite que essas pessoas acessem o transplante, mas está organizado para que os homens brancos que precisarem recebam os órgãos dos negros assassinados (pela violência policial, pela pobreza, no trânsito ou no crime).

Chocado? O capitalista mata pessoas jovens negras para garantir um suprimento de órgãos a velhos brancos. Israel, segundo denúncias do Euro-Med Monitor, além de várias autoridades palestinas de maneira recorrente, está agindo diretamente e assassinando palestinos e roubando seus órgãos sem disfarçar ou criar mecanismos sutis para fingir as tais igualdade e liberdade.


Novamente, em ambos os casos, o racismo não é algo do qual o capitalismo possa prescindir, portanto, novamente, capitalismo e racismo são inseparáveis do ponto de vista factual e precisam sê-lo também do ponto de vista analítico e organizativo.


É necessário repetir elementos econômicos que demonstram que sem o racismo não existiria capitalismo no Brasil e em boa parte do mundo.  Seria impossível acumular riqueza explorando trabalho se o início disso não fosse baseado no colonialismo e na escravização estruturada no racismo. A escravização atualmente é ilegal, mas não está extinta e que as formas mais rebuscada e fetichizadas de exploração não seriam possíveis sem a riqueza acumulada inicialmente. E segue não sendo possível continuar a exploração e a expropriação sem novos projetos coloniais e sem o racismo como justificativa para a superexploração, manter a existência dos exércitos de reserva e as formas ilegais mas protegidas pelo Estado burguês de seguirem explorando.

Também sempre retomo que há uma expropriação capitalista que acontece justificada pelo capitalismo baseada no machismo que permite que capitalistas roubem U$ 10 trilhões anualmente segundo dados da OXFAM para a produção e reprodução da única mercadoria que gera valor: a força de trabalho. Mais da metade da população trabalha de graça 24 x 7 e não haveria um único bilionário do mundo não fossem essas pessoas escravizadas pela ideologia do patriarcado atuando em todos os aspectos da vida humana em todos os territórios habitados por humanos.

E os fascistas que tentam manter o funcionamento do sistema capitalista em crise sabem muito bem disso. Sabem que não podemos reconhecer direitos reprodutivos às mulheres, incluindo direito ao aborto e ao controle de natalidade, porque isso prejudica a reprodução de força de trabalho. Idem para direitos da população que não cede à pressão ideológica estrutural nas relações afetivas e práticas sexuais e desafia os padrões úteis para a reprodução da sociedade capitalista.

Também não podem superar racismo e xenofobia ou teriam que considerar todas as mortes humanas inaceitáveis, condições desumanas de exploração inaceitáveis. É bom lembrar que os supremacistas brancos, os colonialistas sempre fizeram tudo que Epstein e todos seus “clientes”, “amigos” e “comprados” fizeram com essas meninas com povos indígenas, originários e escravizados de todas as terras invadidas. Assim como o horror ao fascismo e ao nazismo estão relacionados com as vítimas serem majoritariamente brancas (e nem tudo que é branco pra nós é branco pra eles, como irlandeses e “brancos” sulistas e sudestinos brasileiros), ignorando barbáries iguais ou maiores, com maior brutalidade e maior número de vítimas quando elas não são brancas, basta olhar pro fascismo japonês que atingiu chineses e coreanos (e não tem filmes para denunciar), para o massacre espanhol e português nas américas e na África em vários territórios, para o massacre belga no Congo e o massacre atual contra sudaneses, palestinos, somalis, iemenitas e infelizmente não dou conta de fazer listas completas.

E a escala 6×1?

Bom, é fácil encontrar levantamentos que demonstrem que negros são maioria nesse esquema de exploração que a burguesia conseguiu depois de dar um golpe contra o Brasil derrubando a Presidenta Dilma (que usou e abusou de machismo e misoginia para ser levado a cabo e que sem isso talvez não fosse possível, ou teria sido mais difícil e demorado mais). A análise solicitada pelo Alma Preta Jornalismo e realizada pelo Núcleo de Estudos Raciais do Insper demonstra que quanto maiores as jornadas e piores condições de trabalho também maior é a proporção de pessoas negras. Por outro lado, no comércio mais de 90 % da força de trabalho é de mulheres atuando na escala 6×1 e ganhando menos de 2 salários mínimos.

Não é possível derrotar a escala 6×1, outras formas de exploração capitalista e as versões atuais de colonialismo sem enfrentar o patriarcado e o racismo. A desumanização expressa em Epstein, Klein, na Palestina, na Chacina de 3 de novembro de 2025 no Rio, na atuação do ICE nos EUA e nos adolescentes que agrediram Orelha, no silêncio sobre os rompimentos das barragens em MG desse ano e na escala 6×1 e baseada fundamentalmente no patriarcado, no racismo, na xenofobia e na LGBTfobia é ferramenta estrutural do capital. É negacionismo não reconhecer essa relação e fazer discurso de que o enfrentamento a esses instrumentos de opressão sejam diversionismos da luta anticapitalista.  Sem esse enfrentamento não há luta anticapitalista e sem luta anticapitalista não há possibilidade do fim do patriarcado, do racismo, da xenofobia, da LGBT fobia e nem há mesmo como a espécie humana seguir habitando o planeta e existindo.

Sugiro leitura de como a articulação estratégica dessas lutas pode acontecer em artigo que publiquei na Carta Capital no ano de 2024. Só a luta muda a vida! Mas a luta precisa ser organizada e contar com estratégias eficazes, somente possíveis para quem faz  a  análise correta e concreta.

É impossível enfrentar o capitalismo sem enfrentar a misoginia e o racismo!

#SocialismoOuExtinção


[1] Não vou entrar na polêmica mas deixo negritado: defendo a punição exemplar desses adolescentes respeitando o devido processo legal e o Estatuto da Criança e do Adolescente, assim como de todos os que praticaram crimes em torno do caso, sejam pais ou outras pessoas que tenham praticado coação de testemunhas ou qualquer outro crime na forma da lei penal;  sou contra linchamento público de quem quer que seja, especialmente crianças e  adolescentes; defendo a punição de todas as pessoas que desrespeitaram o ECA e cometeram o crime de divulgação de imagem de pessoa menor de idade em suspeita de desacordo com a lei; sou contra a redução da maioridade penal; sou contra pena de morte.

[2] Note que a violência que estrutura a masculinidade predominante tem como suas principais vítimas os próprios homens, selecionados por raça/etnia e por classe social.

Elenira Vilela é professora de matemática e militante política brasileira, atua como membra da Direção Nacional da Intersindical Central da Classe Trabalhadora. Começou sua militância no movimento estudantil aos 12 anos e tem sido uma defensora da educação pública e da democratização da educação. Assumiu uma vaga na Câmara de Florianópolis e é conhecida por sua atuação em diversas lutas sociais, incluindo a defesa das mulheres e a luta contra a violência.

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 Publicado originalmente por: GGN

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