Pode-se compreender a cidade como organismo vivo, a partir da teoria da evolução? Seriam os planejadores urbanos “criacionistas” quando despreza a inteligência coletiva e as transformações cotidianas no território? Leia capítulo de Fitópolis


Stefano Mancuso

Foto: Observatório das Metrópoles

Este é um capítulo de Fitópolis, novo livro de Stefano Mancuso publicado pela Ubu, parceira de Outras Palavras. Quem contribui com nosso jornalismo tem desconto de 20% em todos os livros da editora

O estudo das cidades como organismos vivos sujeitos às regras da vida e da evolução remonta pelo menos à segunda metade do século XIX, quando Patrick Geddes, um botânico escocês nascido em 1854 e um dos pais fundadores do urbanismo, começou a teorizar que as cidades e seu planejamento deveriam ser tratados em termos evolutivos. Era inevitável que isso acontecesse. Geddes não poderia ter passado ileso ao fascínio revolucionário da teoria da evolução. Os anos de sua juventude, na verdade, são os anos em que a teoria da evolução de Darwin (A origem das espécies foi publicada pela primeira vez em 24 de novembro de 1859) muda literalmente o mundo ao explicar não só a origem e a evolução das espécies como ao fornecer uma nova chave de leitura para toda a realidade. Além disso, de 1874 a 1879, Geddes estudou em Londres com o influente filósofo e biólogo Thomas Huxley, um dos mais fervorosos defensores do evolucionismo, – a ponto de se apelidado de “buldogue de Darwin” –, e sobre o qual Darwin escreveu com entusiasmo em sua autobiografia: “Sua inteligência é rápida como um relâmpago e afiada como uma navalha. Ele é o melhor orador que conheço e as coisas que escreve nunca são banais. Pela sua conversa, ninguém suspeitaria que ele pudesse lidar com seus oponentes de forma tão incisiva e decisiva. É um grande amigo, sempre pronto a enfrentar qualquer tipo de problema por mim. […] Um homem maravilhoso, que sempre trabalhou pelo bem da humanidade”.[1] Era impossível sair da escola de Huxley sem uma sólida formação evolucionista.

Patrick Geddes participa da revolução darwiniana e abraça plenamente suas conclusões, incluindo a nova luz que ela lança sobre todos os campos do conhecimento humano. Tudo parece perfeitamente projetado para descrever de maneira inédita até mesmo algo tão antigo quanto uma cidade, só falta alguém que traduza as descobertas de Darwin para o planejamento urbano. Esse alguém acabou sendo o próprio Geddes, que em seu livro Cidades em evolução, de 1915, elabora a ideia de que a cidade deve ser concebida não como um conjunto de estruturas inorgânicas montadas pelo homem, mas como um organismo cujo desenvolvimento é determinado pelo meio em que ele vive e que, por sua vez, exerce influência direta no ambiente a seu redor. Uma cidade que é “semelhante à ramificação de um grande recife de coral — ambos têm um esqueleto de pedra do qual emergem pólipos vivos. Vamos chamá-la, se preferirem, de madrépora humana”.[2] Hoje a analogia entre as cidades e os seres vivos pode parecer bastante familiar, mas na época foi uma verdadeira revolução. Geddes, com sua abordagem evolucionista, tornou-se o intérprete de uma nova forma de conceber o planejamento urbano — uma atividade integrada capaz de compreender as necessidades de uma cidade viva.

“As cidades são organismos vivos; elas nascem, desenvolvem-se, desintegram-se e morrem. […] Em seu sentido acadêmico e tradicional, o planejamento urbano se tornou obsoleto. Ele deve ser substituído pela biologia urbana”, declarou o arquiteto e urbanista José Luís Sert em 1942 durante o Congresso Internacional de Arquitetura Moderna.[3] Mas embora saibamos que o estudo e a compreensão do metabolismo e do catabolismo das cidades trariam consequências decisivas para o meio ambiente e proporcionariam enormes melhorias no âmbito de sua eficiência, a visão de Geddes, embora apresentasse todos os requisitos para mudar o planejamento urbano moderno, não vingou.

Parte da responsabilidade por essa revolução fracassada deve ser atribuída ao próprio Geddes, cuja interpretação original da evolução poderia, na época em que ele a escreveu, ser considerada não alinhada de todo à ortodoxia darwiniana. Mas eram apenas detalhes; a maior parte das ideias sobre a evolução que ele sugeria aplicar à teoria do planejamento urbano era, na verdade, perfeitamente coerente com a teoria darwiniana. Ele estava convencido de que o homem é parte da evolução e todos seus comportamentos foram moldados por sua história evolutiva; que as cidades são como organismos complexos cujos comportamentos adaptativos evoluem e se adaptam ao ambiente de forma realmente autônoma, em grande medida alheia ao controle de seus projetistas; que o espaço urbano influencia e pode atuar na evolução social e cultural de seus habitantes. Entretanto, o que infringia a ortodoxia era sua ênfase na importância da cooperação no desenvolvimento das cidades, em contraposição à luta pela existência, então considerada um dos impulsos fundamentais da evolução, o único darwinianamente aceitável. Nunca lhe perdoaram que, enquanto aluno de Huxley — o principal divulgador da ideia de que a vida não passa de uma luta contínua à qual apenas alguns sobrevivem –, ousasse ter uma concepção tão heterodoxa da evolução.

É preciso ter em mente que, para Thomas Huxley, o conceito de luta pela existência, do qual Darwin se vale de forma sobretudo metafórica, representa a verdadeira e tangível contrapartida natural do “estado de contínua inimizade” descrito por Hobbes no Leviatã, que induz os homens a viver “na situação e postura dos gladiadores, com armas em riste e os olhos fixos uns nos outros”.[4] Devemos a Huxley a difusão da imagem do gladiador mais próxima de uma ideia de evolução conforme a qual, fora das “relações familiares limitadas e temporárias, a guerra hobbesiana de todos contra todos” constitui “o modelo normal da existência”;[5] uma posição que foi muito popular e prontamente adotada e difundida pelos chamados darwinistas sociais. Em breve, a imagem da vida como uma arena de gladiadores decididos a massacrar uns aos outros se tornaria a representação banal e errônea pela qual a teoria da evolução seria conhecida entre o grande público. Essa visão produziria, e infelizmente continua a produzir, enormes danos, tendo sido criticada publicamente, na época de Geddes, apenas por pouquíssimos intelectuais.

Um desses personagens, relevante para nossa história porque ligado a Patrick Geddes por sentimentos de estima e amizade mútua,[6] é Élisée Reclus, geógrafo francês muito conhecido e autor, entre 1876 e 1894, de uma monumental Nouvelle Géographie universelle. Crítico feroz dos darwinistas sociais e de sua visão gladiatória da vida, escreveu que “eles dizem isso com uma espécie de raiva, como se ver sangue os incitasse a matar”.[7] Sua ideia de evolução, plenamente compartilhada com Patrick Geddes, é muito diferente. Ele não enfatiza a evolução do mais apto através da luta individual com unhas e dentes, mas o valor da solidariedade, graças à qual assistimos à associação de forças espontâneas e coordenadas que levam ao progresso. Nas palavras de Reclus, a lei da luta cega e brutal pela existência, tão exaltada pelos adoradores do sucesso, está subordinada a uma segunda lei, a do agrupamento de individualidades frágeis em organismos cada vez mais desenvolvidos, que aprendem a se defender das forças inimigas, a reconhecer e até mesmo criar recursos do próprio ambiente. Sabemos que, se nossos descendentes atingirem seu elevado destino de ciência e liberdade, isso será devido ao encontro cada vez mais íntimo, à colaboração incessante, à ajuda mútua a partir da qual a fraternidade cresce gradualmente.[8]

É a esse tipo de evolução que Geddes se refere com sua concepção evolucionária da cidade. Uma evolução que não age através da luta total de todos contra todos, mas que retira sua força fundamental da cooperação entre seus habitantes.

Uma visão que sabemos ser respaldada por sólidas evidências científicas a partir das importantes pesquisas da bióloga Lynn Margulis.[9] De fato, a cooperação, o apoio mútuo ou, como dizemos hoje, a simbiose, é verdadeiramente um dos principais motores da evolução, cuja ação afeta indiferentemente os indivíduos, as comunidades e até o desenvolvimento das cidades.

Além da amizade com Reclus, Geddes foi beneficiado pela proximidade com Kropotkin, a quem conhecia pessoalmente e estimava, e que desempenhou um papel decisivo sobre suas considerações a respeito da cooperação como fator de evolução. Em 1902, o príncipe russo Piotr Alekseiévitch Kropotkin, filósofo, cientista, um dos pais do pensamento anarquista, e sobretudo grande biólogo evolucionista contrário às teses simplistas de Huxley, publicou um volume decisivo intitulado Ajuda mútua: um fator de evolução, cujo início diz:

Dois aspectos da vida animal me impressionaram particularmente durante as viagens que fiz quando jovem à Sibéria Oriental e ao norte da Manchúria. O primeiro foi a extrema dureza da luta pela sobrevivência que quase todas as espécies animais tinham que enfrentar contra uma natureza inclemente; a enorme destruição da vida ocorrida periodicamente por causas naturais; e a consequente escassez de vida no vasto território que tive a oportunidade de observar. O outro aspecto era não ter conseguido encontrar, mesmo procurando incessantemente, até naqueles poucos lugares onde havia muita vida animal, aquela tal luta feroz pelos meios de subsistência entre animais pertencentes à mesma espécie, que a maioria dos darwinistas (mas nem sempre o próprio Darwin) considerou a característica dominante da luta pela vida e o principal fator da evolução.[10]

Em seu livro, Kropotkin defende uma tese sugestiva fundamental para a teoria urbana. Explica que, em suas inúmeras viagens a algumas das áreas mais inóspitas do planeta, quase nunca encontrou entre as populações vegetais, animais e humanas dessas áreas comportamentos que pudessem ser descritos como competitivos ou, em geral, parecidos com aquela ideia de uma arena onde sobrevive o mais temível.

Pelo contrário, o que lhe parecia evidente era que havia uma atitude generalizada e consciente de apoio mútuo e que em ambientes extremos, como na Sibéria, a única possibilidade de sobrevivência de qualquer organismo vivo era por meio da colaboração plena e incondicional com todos os outros indivíduos da espécie e, muitas vezes, também com aqueles de outras espécies. Certamente não era por meio da competição. Kropotkin também escreve que, pelo que viu em suas viagens, a competição entre indivíduos só pode existir quando ocorrem concomitantemente dois fatores muito importantes: um ambiente favorável e estável combinado a uma riqueza de recursos. Quando um desses requisitos não é atendido, a cooperação, ou melhor, a ajuda mútua, é de longe o sistema mais eficiente e, portanto, preferível pela evolução, para garantir a sobrevivência.

Trata-se de uma intuição extraordinária que parece ir contra o senso comum. É justamente em condição de escassez de recursos que imaginaríamos a maior competição, não em condições de abundância. Quantas vezes pensamos que homens ou animais que lutam com ferocidade para garantir os poucos recursos disponíveis são a representação clara da necessidade de competir para sobreviver? A ética do gladiador, conforme a qual apenas um permanece vivo: o mais forte. Kropotkin, graças a suas observações oportunas e à miríade de exemplos bem documentados, fornece pela primeira vez evidências científicas para respaldar a ideia de que a cooperação é uma força motriz fundamental da evolução. Uma intuição que não só sabemos ser verdadeira, mas que numa época como a nossa, caracterizada por um ambiente instável (como o que resulta do aquecimento global) e pelo declínio dos recursos, assume uma relevância ainda mais excepcional para a forma como nós imaginamos e construímos nossas cidades.

Podemos, portanto, afirmar com segurança que a ênfase na sinergia e a cooperação que Geddes sublinha em seus escritos sobre a cidade são totalmente corroboradas pelo conhecimento científico atual. Desse ponto de vista, sua observância dos preceitos da evolução está salva. No entanto, onde a ortodoxia vacila um pouco, a ponto de ser incompatível com o ensinamento darwiniano, é quando Geddes sugere que a evolução urbana deve ser imaginada como um desdobramento gradual de um tipo de programa de desenvolvimento inerente à própria cidade. Na verdade, a evolução darwiniana nega essa ideia. Não há uma finalidade para a evolução, não há um modelo a ser alcançado, tampouco um aumento de complexidade, como às vezes se diz. Não existe isso. A evolução não pode ser prevista, pois a mudança pode ocorrer em qualquer direção. A única certeza que podemos ter é que ela continuará trabalhando incansavelmente, adaptando espécies, assim como cidades, às condições de um ambiente mutável.

Uma das ideias principais da teoria da evolução que Geddes não entende, ou talvez não aceite, é que uma combinação de pequenas mudanças, muitas vezes completamente desconectadas entre si, pode levar a uma grande mudança. Essa é uma das percepções mais poderosas de Darwin. Pequenas mudanças aleatórias podem acarretar o surgimento de uma nova ordem. A evolução não acontece por meio de convulsões, mas por pequenas mudanças graduais. Aqui reside uma das lições mais valiosas para os urbanistas: o destino de uma cidade não está só nas mãos de um escritório de arquitetura ou da administração, mas nas ações de seus cidadãos, que com seus atos e escolhas cotidianas no médio e longo prazo modificam sempre e de forma imperceptível sua estrutura. A partir desse ponto de vista, o trabalho daqueles que são chamados a imaginar o futuro das nossas cidades deve levar em conta a força inexorável da evolução. Quanto um arquiteto poderia aprender lendo A variação das plantas e animais domesticados, de Charles Darwin! E no entanto parece que muitos urbanistas continuam entre os últimos criacionistas, os últimos que ainda acreditam no poder criativo do projeto.


Notas

1 Charles Darwin, The Autobiography of Charles Darwin (1809–1882): With Original Omissions Restored. New York City: W. W. Norton & Company, 1993, pp. 106–07.

2 Patrick Geddes, Cities in Evolution. London: Ernest Benn Limited, 1968, p. 26.

3 Apud “Biology of Cities”. Time, 30 nov. 1942.

4 Thomas Hobbes, Leviatã, trad. Gabriel Marques e Renan Birro. Petrópolis: Vozes, 2020, p. 121.Birro. Petrópolis: Vozes, 2020, p. 121.

5 Thomas Huxley, “The Struggle for Existence in Human Society”,

6 in Evolution and Ethics, and Other Essays. London: MacMillan & Co., 1894, p. 204.

7 Siân Reynolds, “French Connections: The Scientific, Academic and Political Networks of Patrick Geddes in France (1870s–1900)”, in David Bates e Véronique Gazeau (orgs.), Liens personnels, réseaux,

solidarités en France et dans les îles Britanniques (xie -xxe siècle). Paris: Éditions de la Sorbonne, 2006.

8 Élisée Reclus, “Pages de sociologie préhistorique”. L’Humanité Nou- velle, 1898, p. 138.

9 Id., prefácio a Léon Metchnikoff, La civilisation et les grands fleuves historiques. Paris: Hachette, 1889, pp. xxvii–xxviii.

10 Lynn Margulis, “Symbiosis and Evolution”. Scientiflc American,

v. 225, n. 2, 1971, pp. 48–57.

11 Piotr A. Kropotkin, Mutual Aid: A Factor of Evolution. Montreal: Black Rose Books, 1989, p. 35.

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 Publicado originalmente por: outraspalavras.net

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