José Genoíno talvez tenha resumido, em uma única frase, o que Brasília ainda tenta tratar como mera sucessão de acidentes

José Genoino (Foto: Mario Agra/Câmara dos Deputados)
José Genoino (Foto: Mario Agra/Câmara dos Deputados)

A rejeição ao indicado de Lula para o STF, a tentativa de aliviar penas dos golpistas e o arquivamento da CPI do Banco Master mostram que o governo enfrenta uma coalizão institucional para limitar o Executivo antes de outubro de 2026 

José Genoíno talvez tenha resumido, em uma única frase, o que Brasília ainda tenta tratar como mera sucessão de acidentes institucionais: “Foi uma grande aliança que envolveu a dosimetria, a rejeição do Messias e o arquivamento da CPI do Banco Master”. 

A rejeição de Messias não foi apenas uma derrota do governo no Senado. A dosimetria dos condenados pelo 8 de janeiro não é apenas um debate jurídico sobre penas. O arquivamento da CPI do Banco Master não é apenas mais uma manobra parlamentar para enterrar investigações incômodas. 

Juntos, esses fatos desenham algo mais grave: a formação de uma maioria institucional disposta a limitar o poder do Executivo, proteger interesses alojados no Congresso, reduzir o alcance da responsabilização dos golpistas e abrir caminho para a recomposição da direita e da extrema direita em 2026. 

O veto a Messias 

No varejo da política, discute-se se Jorge Messias tinha votos suficientes, se o governo articulou mal, se Jaques Wagner falhou, se Davi Alcolumbre apenas exerceu seu poder ou se decidiu impor uma derrota calculada a Lula. No atacado, a pergunta é outra: por que o sistema político se moveu com tanta rapidez para impor derrotas simultâneas ao governo justamente nos temas mais sensíveis da conjuntura? 

A resposta passa pelo medo. Medo, sobretudo, de que Lula chegue em outubro com força suficiente para derrotar novamente a extrema direita. E o presidente do Senado está no centro da engrenagem. Ele se tornou peça-chave de uma arquitetura de contenção do Executivo. 

Alcolumbre conduziu a rejeição de Messias. O Congresso derrubou o veto de Lula à dosimetria. A CPI do Banco Master foi arquivada. E, ao redor desses movimentos, formou-se uma constelação de interesses que atravessa Senado, Centrão, oposição bolsonarista, setores do mercado financeiro e segmentos do poder institucional interessados em manter Lula sob tutela. Genoíno deu nome ao método: uma grande aliança. 

Dosimetria, Banco Master e o silêncio conveniente 

A derrubada do veto de Lula à dosimetria precisa ser compreendida nesse quadro. Foi uma derrota do governo. Mas foi também uma vitória simbólica da extrema direita. Uma vitória dos que nunca aceitaram a punição dos responsáveis pelo 8 de janeiro. Uma vitória dos que querem chegar a 2026 dizendo que o golpe foi exagero, que os condenados foram perseguidos e que o país precisa “virar a página”. 

O terceiro ponto levantado por Genoíno é decisivo: o arquivamento da CPI do Banco Master. Toda CPI enterrada antes de chegar ao fundo dos fatos deixa uma pergunta no ar: quem precisava ser protegido? 

Quando Genoíno associa o arquivamento da CPI à rejeição de Messias e à discussão da dosimetria, ele está sugerindo que há uma lógica comum: bloquear investigações, conter o governo e preservar zonas de poder que não desejam ser iluminadas. 

A rejeição de Messias pode ter sido vendida como questão de perfil jurídico, resistência pessoal, disputa interna ou ruído de articulação. Mas, quando colocada ao lado do Banco Master, a leitura muda de escala. Messias não era apenas um nome de confiança de Lula. Era também um quadro identificado com o governo, com trajetória jurídica sólida e potencial para ocupar uma cadeira no Supremo em um momento em que decisões de alta temperatura política continuará passando pela Corte. 

Para setores que temem investigações, responsabilizações e rearranjos institucionais, a composição do STF não é detalhe. É campo estratégico. Por isso a frase de Genoíno sugere que o veto a Messias não pode ser separado do medo de investigações e da tentativa de manter intocados determinados pactos de poder. 

O Amapá, os R$ 400 milhões e a sombra sobre Alcolumbre 

Há um ponto que torna o caso Banco Master ainda mais sensível para Davi Alcolumbre: o Amapá. 

Não qualquer Amapá abstrato, distante do centro do poder. Mas o Amapá que é sua base política, seu território de influência, seu laboratório de poder e o estado onde sua força pública se consolidou ao longo de anos. 

Segundo reportagens publicadas por Poder360, Metrópoles, Gazeta do Povo e outros veículos, a Amapá Previdência, responsável por recursos previdenciários de servidores públicos do estado, aplicou R$ 400 milhões em papéis do Banco Master. A Polícia Federal passou a investigar gestores da Amprev por suspeitas relacionadas à aprovação desses investimentos. Entre os nomes citados está Jocildo Silva Lemos, presidente da autarquia e tesoureiro da campanha de reeleição de Davi Alcolumbre em 2022. 

Este é o dado político incontornável: não se trata de dinheiro privado. Trata-se de dinheiro de servidores públicos do Amapá. Recursos destinados a aposentadorias e pensões foram direcionados para operações com o Banco Master, instituição que se tornou epicentro de uma crise financeira e política de alcance nacional. 

As reportagens também registram que aliados ou pessoas próximas ao universo político de Alcolumbre aparecem na órbita da Amprev. A Gazeta do Povo publicou que Jocildo Lemos é aliado político do senador. O Metrópoles noticiou que José Milton Gonçalves, então conselheiro da Amapá Previdência, seria próximo de Davi Alcolumbre e de Josiel Alcolumbre, irmão do presidente do Senado. A defesa política de Alcolumbre, por sua vez, nega interferência nas decisões da Amprev, e o senador não aparece como investigado. Mas não elimina as perguntas política. 

Como o presidente do Senado poderia tratar com distância burocrática uma CPI capaz de investigar o Banco Master quando R$ 400 milhões da previdência dos servidores do seu próprio estado foram parar em papéis do banco? 

Como separar completamente o caso Master da geografia de poder de Alcolumbre se o episódio toca diretamente o Amapá, sua principal base eleitoral e política?  

Como aceitar que o arquivamento da CPI seja apenas uma escolha regimental quando a investigação poderia iluminar relações entre banco, fundos públicos, gestores estaduais, aliados políticos e estruturas de poder? 

Há conflito político evidente 

A CPI do Banco Master poderia investigar a rede de relações que permitiu que recursos públicos fossem expostos a operações de altíssimo risco. No caso do Amapá, essa rede passa por personagens ligados ao universo político de Alcolumbre. 

É por isso que o arquivamento da CPI não pode ser tratado como detalhe burocrático. É por isso que a frase de Genoino ganha densidade. Quando se somam rejeição de Messias, dosimetria dos golpistas e Banco Master, o cenário deixa de ser confuso. Fica claro demais. 

O Senado que bloqueia Lula é o mesmo Senado que alivia a pressão sobre os condenados pelo golpe. É o mesmo Senado que impede a CPI do Master de avançar. É o mesmo Senado presidido por um político cuja base estadual foi atravessada pelo escândalo dos R$ 400 milhões da previdência dos servidores do Amapá aplicados no banco. 

Afinal, quem tem medo de que a investigação chegue ao Amapá? E mais: quem tem medo de que ela saia do Amapá e alcance o coração do sistema político? 

A normalidade da chantagem permanente 

Lula sempre foi, acima de tudo, um negociador. 

Sua biografia política foi construída sobre a capacidade de conversar com adversários, compor maiorias, reduzir tensões e atravessar crises que pareciam insolúveis.  

Mas há momentos em que a negociação deixa de ser virtude se passa a ser confundida com submissão. 

A pergunta que se coloca agora é se Lula ainda está diante de aliados difíceis ou se já enfrenta uma engrenagem organizada para limitar seu governo, desgastar sua autoridade e preparar o terreno para as eleições de outubro de 2026. 

O presidencialismo brasileiro sempre exigiu negociação com o Congresso. Mas o que se desenha agora vai além do presidencialismo de coalizão. É um presidencialismo de contenção. O governo eleito governa, mas sob ameaça. Propõe, mas é bloqueado. Indica, mas é vetado. Veta, mas é derrubado. Investiga, mas vê CPIs arquivadas. Tenta punir golpistas, mas enfrenta uma maioria disposta a reduzir o custo do golpe. 

Esse é o cerco. E Lula sabe reconhecer um cerco. 

O medo de 2026 

O pano de fundo de tudo é 2026. 

O novo método da extrema-direita é mais sofisticado do que o de 2023 e da baderna do 8 de janeiro. Ataca-se por dentro. Pelo Congresso. Pelas comissões. Pelas pautas-bomba. Pela sabotagem orçamentária. Pela tentativa de reabilitar golpistas. Pela pressão sobre o Supremo. Pela captura das redes digitais. Pela guerra permanente de narrativas. Pela transformação de derrotas institucionais do governo em sinais de fraqueza política. 

O objetivo é chegar a outubro com Lula desgastado, o governo bloqueado, a militância desmobilizada discutindo detalhes, a extrema direita recomposta e os condenados pelo golpe convertidos em mártires de uma suposta perseguição. 

É por isso que a dosimetria importa. É por isso que o veto a Messias importa. É por isso que o Banco Master importa. É por isso que os R$ 400 milhões da previdência dos servidores do Amapá importam. É por isso que Alcolumbre deixou de ser apenas um problema de articulação parlamentar e passou a representar um desafio estratégico para o governo. 

Não se trata de personalizar a crise. Trata-se de entender a função política que cada personagem passou a exercer dentro dela. Alcolumbre, neste momento, opera como ponto de convergência de interesses que não querem apenas derrotar Lula em votações específicas. Querem reduzir o alcance de seu governo e dificultar sua reeleição. 

Por que tanto esforço para impedir a investigação avance? 

Lula parece ter entendido que sofreu três golpes políticos sucessivos: o veto à sua indicação ao STF, a derrubada do veto à dosimetria dos golpistas e o arquivamento da CPI do Banco Master.  

O caso dos R$ 400 milhões da previdência dos servidores do Amapá acrescenta a pergunta que incomoda: por que tanto esforço para impedir que essa investigação avance? 

O que está em jogo é saber se o Brasil será governado pelo presidente eleito ou por uma coalizão de veto instalada dentro das instituições. 

A democracia está sendo corroída por acordos de bastidor, CPIs enterradas, penas recalculadas, vetos derrubados, indicações sabotadas, dinheiro público protegido do escrutínio e chantagens convertidas em rotina. 

É isso que Lula começa a enfrentar. É isso que o país precisa enxergar antes que a grande aliança contra Lula avance mais um passo para o golpe final. 

  Publicado originalmente por: Brasil 247

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