Nas próximas eleições estarão em jogo a continuidade da nossa democracia e a sobrevivência do Brasil como país soberano. 


Por Marcelo Zero*

Nas próximas eleições estarão em jogo a continuidade da nossa democracia e a sobrevivência do Brasil como país soberano. Não é pouca coisa. Na realidade, é tudo.

Por isso, é imprescindível ter presentes algumas verdades e desfazer alguns mitos infelizmente muito generalizados.

A primeira coisa que precisamos entender é que o próximo pleito se dará em um contexto geopolítico ameaçador e de grande risco.

O Brasil e toda a nossa região estão sob ataque. Sob ataque de um governo de extrema-direita que aposta no unilateralismo, na força e na destruição das instituições multilaterais e do direito internacional público como vetores da imposição de uma hegemonia predatória. Sob ataque de um projeto obsoleto e irracional de retorno a um passado mítico, o qual, além de estar fracassando internamente, está enfraquecendo e isolando os EUA, no cenário mundial.

A absurda revogação do visto da nossa embaixadora em Washington, uma óbvia chantagem de Marco Rubio, é mais uma demonstração clara disso. Outra demonstração transparente desse objetivo de impor uma hegemonia férrea ao Brasil e a todo o continente americano foi o bizarro e canhestro vídeo feito pelo Departamento de Estado, no qual se afirma que “o domínio americano sobre o Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado”.

O recado neocolonial está dado: submetam-se ou sofram as consequências. O Brasil soberano de Lula, no entanto, continuará a resistir, pela via pacífica das negociações e da construção de alianças estratégicas e mesmo táticas, como a que fez recentemente com a China para questionar os tarifaços ilegais de Trump na OMC.

É impossível para qualquer país do mundo, por mais poderoso que seja, ter amplo protagonismo internacional sem uma forte política de cooperação e de alianças. O Brasil entende isso. A China entende isso. O Canadá entende isso.

Infelizmente, Trump não consegue compreender o óbvio. Acha que as relações internacionais são um jogo de soma zero, que só pode resultar em um único “vencedor” e numa extensa lista de “perdedores”. Aprenderá a verdade da pior forma: pela dura via da derrota e pela descendente estrada do olvido.

Desse modo, todas as forças políticas internas que se aliaram a Trump e traíram os interesses nacionais estão também destinadas a um fracasso vergonhoso e monumental.

Por forças políticas internas aliadas a Trump e ao seu inevitável fracasso, entendemos não apenas as que se aglutinaram em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro, mas também todas as outras candidaturas que são derivadas do bolsonarismo e que fazem parte do mesmo campo político-ideológico. Pequenos bolsonaristas não deixam de ser bolsonaristas por serem pequenos. O “apequenamento” político é exatamente o mesmo.

A candidatura de Lula é a única realmente comprometida com a soberania do Brasil. Enquanto alguns traem a economia brasileira e estimulam a destruição dos empregos dos brasileiros, Lula, altivo e firme, defende nosso país com coragem política, consistência técnica e com uma estratégia inteligente e bem-sucedida de diversificação das parcerias estratégicas.

A candidatura de Lula é a única também efetivamente comprometida com a democracia.

A candidatura bolsonarista e as derivadas do bolsonarismo são aliadas da extrema-direita trumpista e, ademais, apoiaram entusiasticamente um governo que atentou frontalmente contra nossas instituições democráticas e tentou, de forma comprovada, dar um golpe de Estado. Essas candidaturas não podem enganar a população e fingir, agora, que têm compromisso com a democracia brasileira. Seus “compromissos” equivalem a uma nota de 3 dólares. Além de falsos, estão à venda. Quem está disposto a entregar o país, entrega a democracia junto.

As forças aglutinadas em torno da candidatura de Lula são as únicas, entre as candidaturas de maior evidência, que podem ser classificadas como “antissistema”. As outras estão comprometidas até o pescoço com as carcomidas estruturas de um modelo secular que privilegia os interesses de uma pequena oligarquia e que ignora os direitos e interesses insatisfeitos do povo brasileiro.

As forças reacionárias e da extrema-direita brasileira sempre se opuseram a qualquer projeto de país que colocasse, no centro político, a resolução da questão da desigualdade e da pobreza. Foram e são as forças do atraso.

Lula, ao contrário, sempre colocou no centro político de todos os seus governos os interesses do povo do Brasil. Sempre lutou contra a fome, contra a pobreza, contra as nossas grandes desigualdades. Em seus governos, a desigualdade sempre caiu e a pobreza sempre se reduziu, de forma significativa.

Seus governos sempre foram também governos de crescimento, com responsabilidade fiscal racional, nunca radical e intempestiva. Tal responsabilidade, por conseguinte, nunca sacrificou os pobres e o desenvolvimento. Lula jamais se comprometeu com um austericídio estéril e contraproducente, como sempre desejaram seus opositores.

Neste seu terceiro governo, Lula tirou, de novo, o Brasil do Mapa da Fome, da “fila do osso” e o nosso país atingiu um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de “muito alto”. Lula, que passou pela fome e pela pobreza, tem um compromisso profundo, existencial, com a luta, ainda inconclusa, contra a pobreza, contra as desigualdades, contra quaisquer formas de exclusão e de injustiça.

Ser “novo”, no Brasil, é isso. É estar efetivamente comprometido com o povo, especialmente com os mais necessitados, os negros, as mulheres. O resto é o “atraso” de sempre, que impede o Brasil de crescer e de se desenvolver. O Brasil só será grande e rico quando seu povo também for grande e rico.

Com Lula, estamos nesse caminho virtuoso. As outras candidaturas em evidência querem, em geral, a volta a um passado vergonhoso. A de Lula é a única que é portadora de futuro e que tem um projeto consistente e crível para atingi-lo.

A candidatura Lula é plenamente consciente de que os modelos assentados nos ultrapassados paradigmas do neoliberalismo e do Estado mínimo, que tanto “frisson” ainda causam nas mentes antediluvianas das outras candidaturas, fracassaram em escala planetária.

O país que mais cresceu nas últimas décadas e o que mais eliminou a pobreza, a China, soube refundar o capitalismo, combinando fortes estímulos estatais, principalmente em setores estratégicos, com empresas privadas extremamente competitivas e eficazes.

A história econômica nos ensina que para que o mercado seja forte e dinâmico não se pode ter um Estado fraco. Ao contrário, um mercado forte e dinâmico só consegue nascer e crescer com um Estado também forte e dinâmico.

Por isso, é imprescindível, para que o Brasil possa crescer, que o Estado mantenha instrumentos para promover investimentos bem calibrados em logística, em ciência e tecnologia, em educação, na neoindústria, na transição energética etc., atacando os gargalos do desenvolvimento, como o governo Lula já vem fazendo e pretende intensificar.

As outras candidaturas propõem, em sentido contrário, no campo econômico, a implantação do modelo paleoliberal do “fazendão agroexportador”, centrado na exportação de commodities, nas desigualdades, na redução dos direitos e dos rendimentos dos trabalhadores, no encolhimento do mercado interno, no desinvestimento estatal e na submissão geopolítica.

Nesse modelo, tanto faz se a população mais pobre está ou não na “fila do osso”. O importante é que a carne e outros produtos sejam exportados. A exclusão é algo dado e necessário, nesse modelo. Tudo isso misturado com políticas de segurança que simplesmente emulam velhas e populistas medidas fascistas, que apostam na violência policial indiscriminada e nas execuções e linchamentos como meios “lícitos” para se combater a criminalidade.

Lula é totalmente diferente dessa distopia neofascista.

Lula já fez muito, mas quer fazer muito mais.

Contudo, o mais importante a ser destacado é que a candidatura de Lula é a única que possui um perfil moderado e politicamente racional.

Não existe uma “polarização” efetiva entre as forças de extrema-direita e as forças que apoiam Lula. E não existe por uma razão muito simples: Lula nunca representou um “extremo”.

Ao contrário, Lula, desde os tempos em que era dirigente sindical, sempre apostou na moderação, nas negociações, no diálogo e na paz. Seus governos sempre procuraram aglutinar as forças e os interesses de todo o Brasil. Lula nunca apostou em violência, intolerância, ódio e mentiras, como muitos de seus adversários fazem sistematicamente.

Lula se tornou o único político brasileiro que atingiu o raro status de estadista de nível internacional exatamente por causa desse perfil notório de grande negociador, de liderança positiva, conciliadora e pacífica. Lula, mesmo falando só português, se faz entender em todo o mundo.

Lula encanta o planeta. Lula é o nosso equivalente a um Gandhi, a um Mandela. Bolsonaro era pária.

Assim, o Brasil não precisa de uma “terceira via”, como comentam alguns. Lula já é a terceira via da moderação e do diálogo, capaz de unir o País. As forças independentes, que tenham compromisso efetivo com soberania e democracia, poderão se unir a essa candidatura, no momento em que julgarem oportuno. Serão bem-vindas.

Na realidade, Lula é a única via racional para o nosso país. Não há outra.

Mais do que nunca, o Brasil precisa de Lula.

*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais

 Publicado originalmente por: VIOMUNDO

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