
A grande mídia, como defensora dos interesses de mercado, já tenta criar uma agenda para Dilma Rousseff, estabelecendo medidas que a nova presidente deve tomar em nome de uma suposta responsabilidade fiscal. O Globo, por exemplo, determinou em editorial, que no início de taxa básica de juros, de 10,75%, que leva aos maiores juros reais do mundo, deverá subir para conter pressões inflacionárias. E sentencia que Dilma, “pela experiência obtida no governo Lula, tem condições de ser aprovada neste primeiro teste.”
Aprovada por quem? Só se for pelos interessados em taxas de juros elevadas que aumentam os seus ganhos. A mídia, que ecoa a voz do mercado, tenta imputar à nova presidente a imagem de que a responsabilidade está em praticar as políticas que interessam aos investidores e não à maioria da população. Neste sentido, os desenvolvimentistas são apresentados como gastadores e os ortodoxos, como prudentes. Defende-se a política do crescimento baixo, incapaz de lidar com as necessidades do país e repudiada pela população nas três últimas eleições presidenciais.
A escolha do futuro presidente do Banco Central virou um prato cheio para o mercado expressar seus interesses via colunas e editoriais da grande imprensa. Todos incensam o atual presidente que se vai e destacam que o fundamental é manter a autonomia do Banco Central. Repetem o modelo que transforma a autoridade monetária em figura tão importante quanto o presidente da República e que coloca a economia à frente da política. O presidente do BC pode ser um técnico e sua soberania tem que estar subordinada aos interesses maiores do país. Sua opinião de técnico sempre será levada em conta, mas jamais pode ser a única e última palavra. Isso não significa interferir nas avaliações do Banco Central a bel prazer, mas discuti-las politicamente, como deve ser feito em relação a qualquer medida que envolva os interesses maiores da nação.
Dilma já garantiu que vai manter o essencial do atual modelo econômico, como o regime de metas de inflação, mas também anunciou que um de seus objetivos é reduzir a taxa real de juros (descontada a inflação) a um patamar em torno de 2% contra os atuais 5,3%. Isso não fere a responsabilidade fiscal, porque não seria alcançado pelo peso da caneta e sim por políticas de crescimento da economia, com redução da meta do superávit primário, o que já começou a ser feito, e da relação dívida/PIB.
O discurso da mídia é alarmista e forçado. Os índices inflacionários são alardeados como doenças gravíssimas e os remédios apregoados para seu tratamento são os mais amargos. Mas nada está fora de controle no país. A inflação estimada pelo próprio mercado para 2011 (5,15%) deverá ser inferior à de 2010 (5,58%), comportando perfeitamente a união de crescimento com inflação sob controle. Usa-se o fato de a inflação ficar acima do centro da meta (4,5%) como um problema grave, quando o regime de metas trabalha justamente com uma banda que permite oscilações de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, sem que a meta seja descumprida.
A inflação registrada agora pelo IPCA-15, similar a outras verificadas ao longo de 2010, é caracterizada por fatores sazonais e os preços tendem a ceder nos próximos meses. O papel do mercado é elevar os juros no mercado futuro e pressionar por ajustes fiscais, rentáveis para as aplicações de seus clientes. O do governo é saber que além do mercado existem vidas, necessitadas de mais investimentos públicos e de maior crescimento para se manterem com dignidade e contribuírem, com seu suor, para o desenvolvimento do país
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