Os valores que chamam mais atenção foram desembolsados pela União no início de junho, já no meio da crise política enfrentada pela gestão Temer após a divulgação da investigação baseada nas delações dos executivos do Grupo JBS. Ao todo, foram três emendas de Cunha neste período, que somaram R$ 1.671,5 milhão: no dia 1º, R$ 928,4 mil para Seropédica e, no dia 2, R$ 500 mil para Cachoeiras de Macacu e R$ 243,1 mil para Engenheiro Paulo de Frontin, todas no Rio de Janeiro, estado do ex-deputado. O dinheiro foi destinado à “estruturação da rede de atenção básica de saúde” dos municípios.
Ao todo, foram três
emendas de Cunha neste
período, que somaram R$
1.671,5 milhão.
As emendas
foram empenhadas em
2016 e entraram nos
chamados restos a
pagar.
No início deste ano, outras quatro emendas de Cunha, de valores bem menores, já haviam sido pagas pelo governo. Em 9 de fevereiro, R$ 16.497 para a cidade de Belford Roxo; R$ 12,4 mil para Guapimirim; e R$ 45,4 mil para Itaboraí. Em 15 de março, R$ 17.022 para Barra Mansa. O dinheiro foi voltado para ações nas áreas de urbanismo e saúde.
Maior valor foi para cidade de antigo aliado
As emendas parlamentares individuais são dotações inseridas no Orçamento da União que abastecem os redutos eleitorais dos congressistas com recursos para obras e ações em saúde e educação, entre outras – inclusive o desvio para outros fins. Em ano eleitoral ou pré-eleitoral, a preocupação dos políticos com recursos se acentua. É rotineiro em Brasília, em pleno recesso parlamentar, deputados serem vistos peregrinando por ministérios na tentativa de liberar o restante dos recursos para irrigar suas bases.
O Deputado Estadual Fabio Silva (PMDB), ligado a Cunha, tem sua base política em Seropédica (RJ), cidade que recebeu emenda de mais de R$ 900 mil de ex-parlamentar preso. Foto: jose lucena/Futura Press/Folhapress
Fábio é um aliado histórico do ex-deputado e chegou a empregar em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio Altair Alves Pinto, apontado como uma espécie de “faz tudo” de Cunha. Altair teve o seu apartamento vasculhado pela Polícia Federal em maio, como parte das investigações decorrentes da delação de Joesley Batista, da JBS. O executivo apontou Altair como sendo o homem que recebia o dinheiro para o ex-presidente da Câmara.
Emendas impositivas foram tramadas por Cunha
Tendo os recursos liberados agora, mesmo preso, Cunha foi um dos principais articuladores da implementação das emendas impositivas, quando presidia a Câmara dos Deputados, em 2015. Naquela época, o peemedebista era desafeto e inimigo declarado do Palácio do Planalto, ocupado pela então presidente Dilma Rousseff.
Com articulação de Cunha, o Congresso aprovou a obrigatoriedade do empenho de emendas parlamentares até o limite de 1,2% da receita corrente líquida, incluindo custeio ao Sistema Único de Saúde (SUS). Com o orçamento impositivo valendo, o Executivo se vê obrigado a liberar os repasses indicados por deputados e senadores, respeitada a capacidade de pagamento do governo e dos demais poderes.
O objetivo do congressista era evitar qualquer negociação com o Executivo, garantindo a execução.
No entanto, sem que as emendas tivessem um caráter impositivo, o empenho dos recursos dependeria de negociação política dos interessados com o Executivo, barreira que Cunha desejava superar a todo custo. O objetivo do congressista era evitar qualquer negociação com o Executivo, garantindo a execução.
A execução obrigatória, no entanto, deixou uma brecha para a barganha política: o pagamento efetivo pode ser postergado. Problemas burocráticos, como a falta de documentação correta dos entes beneficiados, também pode resultar num atraso na liberação dos valores.
O portal Siga Brasil confirmou que foi liberado um grande volume de recursos de emendas do ex-deputado Eduardo Cunha em junho de 2017, mas explicou que não existe prazo determinado para que o governo pague as emendas empenhadas.
Foto em destaque: Cunha na Câmara quando ainda a presidia, em abril de 2016. Luis Macedo/ Agência Câmara
The Intercept Brasil



Postar um comentário
-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;