Ao contrário do que diz a narrativa neoliberal, o desenvolvimento tecnológico no capitalismo não é um feito do "livre mercado". Conheça os reais fatores que o possibilitaram.



Por Ricardo J. Camera
Com colaboração de Bruno Lima Rocha[1]

“Os FFRDCs, ou, em português, Fundo Federal de Pesquisa e Centros de Desenvolvimento, marcou o início da institucionalização para o fomento público de pesquisas…”

1O Viajante




A questão a ser posta neste artigo é, antes de tudo, o próprio título. Voyager-1 é o nome dado à sonda espacial lançada pela NASA em 1977, com o objetivo de averiguar Júpiter, Saturno e suas luas. No momento, Voyager-1 é o dispositivo da civilização humana mais distante do planeta Terra, nos confins do Sistema Solar, avançando para o espaço profundo e desconhecido. É público e notório que este avanço histórico do saber humano iniciou na incubação estratégica dos investimentos do governo dos Estados Unidos em suas agências de pesquisa, não se tratando, portanto, de uma mera questão de mercado. É disso que se trata este artigo. A geopolítica da Guerra Fria como divisor de águas na tecnologia, e suas derivações para o período imediatamente posterior à debacle da extinta União Soviética (URSS).

1.2 – O Liberal




Ora, o chamado neoliberalismo – como clamou o ministro da Fazenda Henrique Meirelles[2], titular da economia no governo Temer e presidente do Banco Central nos dois governos de Lula – seria a razão única do desenvolvimento tecnológico das potências mundiais?

Por hora, é de suma importância logo afirmar que o neoliberalismo econômico, ou liberalismo neoclássico, cujos pressupostos costumam ser expostos na mídia convencional, é uma teoria cujos próprios autores admitem não haver necessidade de verificação empírica – como afirmou Milton Friedman (“porque meus modelos são racionais?” perguntava o professor de Chicago. Ele mesmo respondia “porque digo que são”) – e que sua coerência interna já é (seria, indutivamente) suficiente para conferir validade à tese[3]. Tal tese (metafísica), todos já conhecem bem, ou vivem na prática suas mazelas, na medida em que o primeiro resultado socialmente verificável do liberalismo revivido a partir de 1973, é a naturalização e inércia ante as massas empobrecidas. Nesta visão, todos são supostamente iguais perante a lei (mesmo quando a lei garante direitos de herança e não tem nenhuma instituição pública redistribuindo renda ou assegurando direitos), logo, é responsabilidade dos indivíduos (traduzindo-se em individuação ou associação de egoístas) buscar sua própria sobrevivência[4].

Desse modo, tem-se o racionalismo “econômico” (suposto e universal individualismo metodológico) e individualista (autocentrado) como motor único do “progresso”, em detrimento de um Estado desregulado – idealmente sem legislações trabalhistas, ambientais, sanitárias, financeiras ou referentes ao uso do território nacional (superfície e subsolo).

A partir dos anos ’70, o ocidente deixa o acerto que deu garantias aos trinta anos gloriosos e socializa as “perdas” com a baixa da margem de lucros do capital nos países líderes do eixo Anglo-Saxão. Junto a isso, observa-se o corte de impostos sobre as camadas mais abastadas, de modo que resulte no fim do financiamento das instituições do bem-estar social, como os sistemas universais de saúde, educação, assistência social, garantia de emprego, moradia e afins, em detrimento da chamada liberdade econômica[5]. Assim, toda a alegada racionalidade de tipo ”trickle down” é, na prática social verificada centenas de vezes, uma forma de concentração de renda e extração de mais valia coletiva.

Dentro desta ilógica completa, a questão nacional é vista como totalitarismo, a geopolítica é teoria da conspiração, a brutal desigualdade social é parte da paisagem natural, um dado irrelevante, mas que pode ser corrigido pelo próprio mercado.

O Estado, por seu turno, cumprirá o papel de suposto regulador comercial, impedindo cartéis e trustes, ao passo que alocará recursos em prol do mercado. Tal tarefa não significa o apoio ao varejo local, empresas e agricultura familiar (não há, supostamente – nestas teses metafísicas-, um protecionismo para garantir emprego vivo), mas apoio às grandes companhias já internacionalizadas (transnacionais cujo centro financeiro foi reinventado através de holdings em Jurisdições Especiais, também conhecidas por “paraísos fiscais”), uma vez que o patrimônio público é privatizado a um preço agradável ao investidor. Por que os direitos não são vistos como produto de conquistas democráticas, portanto um produto da Ética e da Política, mas um conjunto de meros serviços precificados pelo mercado. Em outras palavras, a sociedade ideal do mercado é aquela marcada pelo homem que é movido unicamente pelo lucro e individualismo, sendo essas regras econômicas um dado universal da “natureza” (daí a dimensão indutiva e metafísica desta panaceia), isto é, valem para todos os tempos e espaços – incluindo os confins do universo para onde a sonda Voyager-1 se direciona[6].

Dentro dessa perspectiva, todo o acúmulo teórico nas Relações Internacionais, na Política Internacional, na Economia Política Internacional e em áreas afins são relegados a um segundo plano. Dentro desta ilógica completa, a questão nacional é vista como totalitarismo, a geopolítica é teoria da conspiração, a brutal desigualdade social é parte da paisagem natural, um dado irrelevante, mas que pode ser corrigido pelo próprio mercado. As religiões e seus conflitos são, por sua vez, uma questão meramente individual, enquanto que a liberdade de expressão vai ao limite da convivência (do tipo de controle policial, “xinga mas não briga”). Por fim, a economia “racional” (não há como não ser irônico diante desta barbaridade) tratará de administrar e solucionar os recursos naturais escassos, por meio de um aparato tecnocrático que no mercado é conhecido como businessman, e no Estado, a burocracia[7] – cujas posições chaves tendem a se confundir propositalmente[8].


2Do Sputnik ao Vale do Silício



Ora, para verificar se esse conjunto é verdadeiro, tem-se como critério de verdade sua verificação concreta, ou seja, sua coerência com a realidade histórica. Para tanto, como estudo de caso, analisamos a formação dos sistemas de satélites dos Estados Unidos, como marco da telecomunicação contemporânea, bem como os meandros estratégicos que envolvem a matéria.

Primeiramente, o contexto histórico do lançamento de satélites artificiais ocorre na insurgência da ordem mundial da Guerra Fria, ou seja, Estados Unidos orquestrando o bloco ocidental capitalista, no âmbito de Bretton Woods, (FMI, BIRD, GATT), sistema das Nações Unidas entreposto e OTAN (o tratado militar com função de proteger a América do Norte e Europa ocidental) (ARRIGHI, 1994).




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