O estado de perplexidade de setores da classe média que apoiaram o golpe é quase palpável em certos bairros do Rio. Deve acontecer o mesmo em São Paulo, acredito, e as fotos da quilométrica fila de pessoas em busca de emprego, estampadas hoje nas capas do Estadão e da Folha, como foi ontem, neste blog, são, certamente, produto deste sentimento.

Dois anos e pico após a “redenção” do país do comunismo, populismo, bolivarianismo e outras idiotices que repetiam para deslegitimar o resultado das urnas, o que se tem é um quadro em que as esperanças desceram a quase zero e espalhou-se a convicção geral de que tudo ainda vai piorar.



As ruas, velozmente, coalharam-se de viventes embrulhados em cobertores, de pedintes de todo o tipo – ando vendo-os onde jamais estiveram, como nos vagões do Metrô – e o grau de desordem e de violência, malgrado mais e mais polícia e até Exército, só faz aumentar.

Uma velha definição marxista dizia que a revolução não ocorre quando os “de baixo” já não podem sobreviver, mas quando “os de cima” também já não podem viver seus privilégios.

Andamos assim.

O país está sendo desfeito, livrando-se de seu patrimônio em troca de nada e, afinal, para nada que seja relevante. A casta judicial vai se tornando, cada vez mais, uma camada autoritária, vivendo em um mundo diferente do real.



Lê-se hoje que uma juíza mandou negou que se pagasse tratamento psicológico aos pais do menino assassinado pela polícia na Maré, quando regressava, de uniforme, para casa. “Que façam no SUS”, disse ela, ao que bem respondeu o advogado, dizendo que, se era para fazer no SUS, sem urgência, nem precisariam ter ido ao Judiciário.

Não é, todos lembram, a primeira Maria Antonieta togada. Há outras e outros, de tailleur ou gravatas, nos escritórios, nas repartições, no mando.

Querem um mundo que não existe, clean, que não pode existir quando milhões estão jogados à imundície, à desgraça, ao abandono.

Mas eles não podem viver sós, nem apenas sair de casa de helicópteros, carros blindados, brutamontes às costas.

A idéia de chamar um energúmeno para dirigir o país a bala vai perdendo ímpeto onde ainda resta alguma atividade cerebral.

Porque o energúmeno que o dirigiria, na lábia, de acordo com os interesses exclusivos da elite foi o fracasso que foi.



Os economistas e jornalistas dos status quo, que diziam que aquele Brasil que produzia, consumia, trabalhava e sonhava era “inviável” e que o que temos é a conta dos anos de prosperidade que vivemos.

Mas o que conseguiram, nestes dois anos de golpe e poder absoluto é apenas estagnação à beira do penhasco e uma falta de legitimidade como jamais se teve aqui, na qual é preciso encarcerar um candidato para que ele não vença, fácil, a eleição.

Talvez, quase certo, lhes falte a lucidez para entender que já não podem viver como sempre viveram, porque este país tem 210 milhões de almas, não apenas as 40 ou 50 milhões que entram em sua conta de quem “é gente”.

Não existe mais, em escala histórica, um Brasil de exclusão, como não podem existir mais países de castas, sobretudo os gigantescos, como este.

Laerte, hoje, na Folha, resume numa imagem o Brasil que ergue muros.

E quem, de fato, vira prisioneiro.




TIJOLAÇO

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