As novas medidas de Trump para a educação revelam uma visão de mundo utilitarista, anticientífica, contra políticas inclusivas e negacionistas

Crédito: Manfred Werner (GNU-FDL and Creative Commons attribution 3.0)

As iniciativas do governo Trump para a educação, em seu segundo mandato, têm sido bastante assertivas. Utilizando-se da “teoria do louco”, lógica segundo a qual decisões abruptas e imprevisíveis ampliam o espaço de ação política, o governo americano tem tomado medidas inesperadas. Uma das mais recentes é a dispensa do diploma para o exercício de profissões tradicionalmente regulamentadas

Segundo a imprensa norte-americana, algumas profissões deixaram de ser considerados “graus profissionais”: enfermagem, assistência médica, fisioterapia, audiologia, arquitetura, contabilidade, educação e assistência social. A indefinição sobre quais profissões serão de fato atingidas é parte da retórica trumpista: testar os limites para mensurar as possibilidades de atuação.

Esse movimento ocorre em um momento crítico para o ensino superior nos Estados Unidos: desde 2008, mais de 300 instituições fecharam, devido à queda no número de estudantes e à crise no financiamento. Em 2024, o ritmo de encerramentos acelerou. Reduzir a importância de diplomas profissionais só tende a agravar esse cenário, já que as carreiras que não necessitam de diploma, possuem menor acesso a financiamentos.

Essas mudanças estão vinculadas a um pacote de políticas tributárias e orçamentárias, chamado “One Big Beautiful Bill” (OBBBA), que inclui cortes de gastos públicos, em geral, para aumento do orçamento militar. Nesse contexto, a educação se tornou alvo. O Departamento de Educação tem sofrido com demissões em massa e com transferência de funções.

As medidas de Trump para a educação revelam uma visão de mundo utilitarista, anticientífica, contra políticas inclusivas e negacionista. Isso se expressa no corte ou congelamento do financiamento a pesquisas sobre mudanças climáticas e sobre vacinas, e nas medidas tomadas contra iniciativas de diversidade, equidade e inclusão. O posicionamento ideológico no campo da educação é coerente com a sua abordagem da política internacional.

A doutrina Trump, centrada no nacional-populismo, recusa o multilateralismo e projeta o poder militar dos Estados Unidos como eixo de hegemonia global. O governo trumpista, seguindo a aparente contradição da “teoria do louco”, ao mesmo tempo que recusa a ordem global liberalizante, promove uma nova aliança em torno de seus interesses imediatos, o que vem sendo chamado por alguns de “aliança global da direita radical”.

Esse mesmo conjunto de princípios tem repercussões na educação. Se depender de Trump e dos políticos que nele se inspiram, o diploma terá cada vez menos relevância. Nesse processo, não apenas a educação sofre, mas profissões essenciais são colocadas em risco. O ataque ao diploma não é apenas um ataque às universidades: é um ataque à qualidade de serviços que são essenciais para a população.

Ricardo Luigi é geógrafo e internacionalista, professor da UFF.

Vitor Stuart Gabriel de Pieri é Professor Associado do Instituto de Geografia da UERJ.

 Publicado originalmente por: Le Monde Diplomatique

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