O Brasil voltou a falar em neoindustrialização mantendo intacto o regime de juros que inviabiliza o investimento produtivo em escala.

Reprodução

O governo Lula retomou a política industrial com planejamento estatal e financiamento de longo prazo via BNDES.
Projetos em energia, saúde, defesa e economia digital mostram sinais de recomposição industrial no país.
Juros altos limitam investimentos produtivos e criam conflito entre política industrial e sistema financeiro.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Neoindustrialização sob cerco: o que o governo Lula já fez — e por que ainda é insuficiente

por Maria Luiza Falcão Silva

Durante anos, a palavra “indústria” desapareceu do vocabulário oficial brasileiro. Foi substituída por expressões neutras como “ambiente de negócios”, “ganhos de eficiência” e “integração às cadeias globais”. O resultado dessa escolha política travestida de técnica foi inequívoco: desindustrialização acelerada, reprimarização produtiva, perda de densidade tecnológica e enfraquecimento da capacidade estatal de planejamento.

O terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva rompeu com esse ciclo. A indústria voltou ao centro do discurso e, mais importante, ao centro da ação pública. Trata-se de uma inflexão histórica real, que deve ser reconhecida. Mas essa inflexão convive com um paradoxo central que não pode mais ser contornado: o Brasil voltou a falar em neoindustrialização mantendo intacto o regime de juros que inviabiliza o investimento produtivo em escala.

O retorno da política industrial como decisão política

A reconstrução da política industrial brasileira não ocorreu por inércia. Foi fruto de uma decisão política clara: abandonar a tese de que a estrutura produtiva se transforma espontaneamente pela ação do mercado. A formulação da Nova Indústria Brasil (NIB) simboliza esse reposicionamento ao recolocar o planejamento estatal, as missões estratégicas e o financiamento de longo prazo no centro do projeto de desenvolvimento.

Ao contrário do período anterior, a política industrial passa a reconhecer setores estratégicos, gargalos tecnológicos e a necessidade de coordenação entre indústria, ciência, tecnologia, infraestrutura e compras públicas. O Estado volta a assumir que desenvolvimento não é subproduto do equilíbrio macroeconômico, mas construção deliberada.

Nesse processo, o BNDES, sob Aloizio Mercadante reassume papel central. O banco amplia o crédito de longo prazo, retoma apoio à indústria de transformação, fortalece linhas de inovação e volta a operar de forma articulada com objetivos produtivos explícitos. Trata-se de uma ruptura importante com o ciclo em que o financiamento ao investimento foi tratado como distorção a ser corrigida.

Exemplos concretos: onde a nova indústria começa a aparecer

Apesar do ambiente macroeconômico adverso, já é possível identificar sinais de recomposição industrial induzidos pela mudança de orientação do governo. Projetos ligados à transição energética, à mobilidade elétrica, à indústria farmacêutica e à cadeia da saúde voltaram a ocupar espaço na agenda produtiva nacional.

Observa-se a retomada de investimentos em biocombustíveis avançados, equipamentos para energia solar e eólica, produção local de insumos médicos e hospitalares, além da expansão de segmentos associados à indústria de defesa e aeroespacial. Também se fortalecem iniciativas voltadas à economia digital, semicondutores em escala compatível com o mercado interno e tecnologias associadas à eficiência energética.

Há ainda maior articulação entre universidades, centros de pesquisa e empresas, bem como o uso mais estratégico das compras públicas como instrumento de indução produtiva. Esses movimentos são reais, mensuráveis e politicamente relevantes. Mas ainda operam em escala limitada diante do atraso acumulado nas últimas décadas.

O problema não está na ausência de resposta da indústria, mas no ambiente estrutural que restringe sua expansão.

Juros altos: o veto silencioso ao investimento produtivo

A taxa básica de juros no Brasil não é um detalhe técnico. Ela organiza todo o sistema de incentivos da economia. Com juros persistentemente elevados, na casa dos 15% a.a. investir na produção torna-se menos atraente do que rentabilizar recursos no mercado financeiro. O resultado é conhecido: projetos industriais são adiados, escalas produtivas são reduzidas e a inovação perde fôlego.

A convivência entre uma política industrial ativa e uma política monetária restritiva produz um descompasso estrutural. O governo sinaliza investimento e planejamento; o sistema financeiro sinaliza contenção e curto prazo. O discurso aponta para o futuro; os juros puxam para a aplicação imediata.

Nesse ambiente, a neoindustrialização corre o risco de se tornar um conjunto de ilhas de excelência cercadas por um oceano rentista, incapaz de alterar a estrutura produtiva de forma sistêmica.

Banco Central, autonomia e o conflito não assumido

O debate sobre juros no Brasil segue protegido por uma narrativa tecnocrática que oculta seu conteúdo político e distributivo. A autonomia operacional do Banco Central do Brasil cristalizou um regime em que o combate preventivo à inflação se sobrepõe de forma quase automática ao investimento, ao emprego e à transformação produtiva.

O custo dessa escolha é socializado, enquanto os ganhos do rentismo permanecem concentrados. Ainda assim, o conflito entre indústria e finanças segue fora do centro do debate público, como se fosse possível reconstruir uma base produtiva complexa sem subordinar o sistema financeiro aos objetivos do desenvolvimento.

A engrenagem política e o sinal do impasse macroeconômico

Nesse contexto, não é casual que voltem a circular especulações sobre mudanças na condução da política econômica e sobre nomes associados a uma crítica mais explícita ao regime de juros elevados. Essas discussões não dizem respeito a indivíduos, mas ao reconhecimento tácito de que a política industrial já esbarrou nos limites do atual arranjo macroeconômico.

A recorrência do nome de Paulo Nogueira Batista Jr. em debates sobre a Fazenda é reveladora. Ele surge não como solução mágica, mas como símbolo de uma inflexão desejada: a repolitização da macroeconomia e o enfrentamento direto do poder do rentismo. O fato de essa especulação persistir indica que cresce a percepção de que exceções institucionais — crédito direcionado, BNDES, compras públicas — já não bastam.

Trata-se de um sinal claro de esgotamento. Quando o debate passa dos instrumentos setoriais para o regime macroeconômico, é porque o problema deixou de ser periférico.

Casa Civil e coordenação do desenvolvimento

Nesse mesmo registro, a discussão sobre a saída de Rui Costa da Casa Civil não pode ser tratada como mero rearranjo administrativo. A Casa Civil é o núcleo de coordenação do governo e exerce papel decisivo na articulação entre política econômica, política industrial, orçamento e planejamento de longo prazo.

A eventual substituição por Miriam Belchior poderia sinalizar uma inflexão relevante. Sua trajetória está associada ao planejamento estatal, ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), fundamental para dar escala e previsibilidade à política de neoindustrialização, à coordenação de grandes programas de investimento e à integração entre políticas públicas. Uma mudança nessa direção reforçaria a dimensão desenvolvimentista do governo e a capacidade de alinhar indústria, infraestrutura e orçamento.

Ainda assim, nenhuma reorganização institucional produzirá resultados estruturais se o principal veto ao desenvolvimento permanecer intocado.

Avanços reais, limites estruturais e a urgência do conflito

O governo Lula recolocou a indústria no centro do projeto nacional. Reconstruiu instrumentos, retomou o planejamento e voltou a tratar a estrutura produtiva como questão estratégica. Esses avanços são reais e distinguem claramente o atual governo do ciclo anterior de desmonte.

Mas eles já começam a esbarrar em um limite objetivo. Não existe neoindustrialização robusta convivendo pacificamente com a hegemonia do rentismo. Não existe política industrial capaz de prosperar quando o custo do capital empurra sistematicamente recursos para fora da produção. Não existe transformação estrutural sem conflito político explícito.

Manter juros estruturalmente elevados não é uma imposição técnica inevitável. É uma escolha política que bloqueia o futuro produtivo do país. Enquanto essa escolha não for enfrentada, a neoindustrialização brasileira seguirá sendo correta na intenção, mas insuficiente no impacto.

O Brasil já sabe o que precisa fazer. Já dispõe de instrumentos, projetos e capacidade técnica. Falta enfrentar o verdadeiro obstáculo.

A pergunta, portanto, deixa de ser analítica e passa a ser decisiva:

Há neoindustrialização possível com uma Selic estruturalmente alta?

Maria Luiza Falcão Silva – MSc em Economia (University of Wisconsin–Madison), PhD (Heriot-Watt University), Professora aposentada da Universidade de Brasília (UnB), membro da ABED e do Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC/NEASIA).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “

 Publicado originalmente por: GGN

Comentário(s)

-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;

Postagem Anterior Próxima Postagem

ads

ads