Meses após viralizar, modelo de vídeo passou por transformações e suscita questões sobre seu potencial político

Um fundo totalmente branco. Ao centro, uma mesa e duas cadeiras, colocadas em lados opostos. Ao redor, assentos dispostos em arco. Há poucos meses, vídeos gravados nesse cenário tornaram-se comuns aos usuários de internet, espalhando-se repentinamente pelas principais plataformas de mídias sociais e alcançando milhões de usuários.

Parte do quadro “Zona de Fogo”, o vídeo “1 comunista vs 20 conservadores”popularizou o formato no Brasil
(Créditos:Youtube/Spectrum/Reprodução)

Alguns dos vídeos em questão diziam respeito ao quadro “Zona de Fogo”, produzido pelo canal brasileiro Spectrum. Em seu terceiro episódio, o programa trouxe o historiador e influenciador Jones Manoel para debater com vinte conservadores. Nele, Jones era colocado de frente a um dos debatedores para discutir temas de interesse público, como o fim da escala 6×1 ou a criminalização do aborto. Em meio a conversa, se os outros dezenove sentados ao redor avaliassem que seu partidário não estivesse se saindo suficientemente bem no debate, bastava que todos levantassem uma bandeira vermelha para interrompê-lo. Assim, saia quem estava na cadeira central e sentava-se um dos outros dezenove, mudando a pessoa da vez para debater com Jones.

O episódio 1 comunista vs 20 conservadores foi um dos responsáveis por viralizar o formato. Publicado no dia 24 de julho, o vídeo já havia alcançado mais de 2 milhões de visualizações no dia 29, menos de uma semana desde seu upload. Hoje, ele conta com mais de 3,6 milhões de visualizações. Ao mesmo tempo, vídeos nos mesmos moldes produzidos pelo Canal Foco, por exemplo, atingiram mais de uma vez a marca dos 10 milhões de acessos.
Apesar de o formato não ser exclusivo da internet brasileira, visto que inicialmente se popularizou por meio de canais norte-americanos, como o Jubilee, sua viralização levantou questões sobre sua legitimidade no nosso debate público.

Modelo novo, efeitos diferentes?

A ideia de colocar pessoas de espectros políticos opostos para debater está longe de ser novidade na internet. O ex-deputado estadual Arthur do Val, vale lembrar, construiu sua popularidade ao ir a manifestações para, à sua maneira, confrontar e debater com pessoas de visões políticas diferentes da sua.

Porém, com seu formato único, os vídeos de “um contra muitos” ou “um contra vinte” poderiam trazer algo novo ao debate público brasileiro e para a produção de sentido político brasileira? Em setembro, tentei desenvolver a pauta e responder esse questionamento. Na época, não foi possível dar continuidade à apuração, e hoje em dia parece que o formato foi apropriado por temáticas ligadas ao entretenimento – atualmente, é mais fácil encontrar vídeos como “1 vascaíno x 20 flamenguistas” do que “1 conservador x 20 ativistas LGBTs”.

Graças às suas particularidades formato traz questões sobre sua validade ao debate público
(Créditos: Pexels/Mikhail Nilov/Reprodução)

Agora, com maior distância temporal para análise e com um formato de vídeo que parece ter se desviado de sua proposta original, retomei a pauta e pude comparar as respostas obtidas durante a primeira e a segunda apuração para, talvez, encontrar alguma resposta.

Uma chance de inverter o debate

No fim de agosto, entrei em contato com o professor Paulo Niccoli Ramirez para conversar sobre o assunto. Paulo tem mestrado e doutorado em Ciências Sociais na PUC-SP e leciona Filosofia, Sociologia, Antropologia e Ciência Política na Escola Superior de Publicidade e Marketing (ESPM) e na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

Antes de falar sobre o formato e suas implicações no debate público brasileiro, Paulo dá um passo atrás para analisar o papel das redes sociais nesse contexto. “Primeiro, a gente tem que pensar que as redes sociais acabaram usurpando o papel do que era da ágora, a esfera pública. Desde os gregos, pensaram no papel da democracia, assim como também na questão que envolve as instâncias antes oficiais para o debate “, diz.

Ao mesmo tempo que a usurpa, a internet pode recriar esses espaços de debates, ainda que não idealmente. Nesse sentido, o professor traz o viés dialético para analisar os meios de comunicação: do potencial de alienar os seus consumidores, mas também de gerar senso crítico e reflexão, numa menor escala. “Era o que o Walter Benjamin, no ensaio chamado A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnicadefinia como oposição de dois conceitos”, afirma.

Seria possível, então, utilizar desses recursos tecnológicos para estetizar a política, no sentido de alienar e massificar, bem como politizar a arte para produzir senso crítico e pensamento engajado. Para o docente, não faltam exemplos que se encaixam na primeira opção aqui no Brasil, mas o modelo “um contra muitos” parece estar mais alinhado com a segunda alternativa.

No ambiente digital, criou-se uma cultura de debate marcada pelo individualismo, aos moldes neoliberais. “A esquerda ficou muito para trás no uso das redes sociais, houve uma alavancagem gigantesca dos grupos extremistas de direita na utilização das redes, o que facilitou, inclusive, a ascensão de políticos ultraconservadores”, explica o professor. A partir das ferramentas tecnológicas, utilizando-se de formatos como monólogos e comentários de notícias, grupos políticos começaram a se promover, como “o caso dos rapazes do MBL”.

Do ponto de vista dialético, o modelo de vídeo tem potencial de produzir senso crítico e pensamento engajado
(Créditos: Pexels/
Pixabay/Reprodução)

Após sair atrás, grupos de esquerda tentam ocupar e apropriar esses espaços digitais. Para o professor, o modelo “um contra muitos”, em especial a participação de Jones Manoel, se situa nesse movimento: de utilizar as redes sociais com um fim político mais claros e definidos, com o objetivo de “realizar uma inversão dialética do uso dessas formas individualistas e visões de mundo muito pessoais em nome de questões mais coletivas, visando, então, o engajamento político e as lutas sociais.”

Na avaliação de Paulo, Jones Manoel consegue fazer justamente isso em sua participação no quadro “Zona de Fogo”, bem como em seus outros trabalhos na internet. Ele reverte o efeito da alienação a partir de suas habilidades discursivas, utilizando-se do debate para fornecer novas formas de conhecimento e uma visão mais crítica aos espectadores – historicamente apresentados a posições de defesa do status quo, seja pelos grupos digitais de direita ou até mesmo pela mídia tradicional.

Ao viralizarem, então, esses vídeos podem gerar engajamento social ao trazer para o debate digital a criticidade presente nos movimentos de esquerda. “Isso enfraquece, nesse processo dialético, a visão de mundo da direita”, completa Paulo.

O professor chama outro teórico da escola de Frankfurt para sustentar sua tese: Jürgen Habermas. O sociólogo entende as redes sociais como uma esfera pública que tende a gerar um debate não público, ou seja, com visões privatistas e individualistas. No entanto, “Habermas também trabalha com a ideia de que, na teoria da ação comunicativa, os meios de comunicação podem ter um papel pedagógico, instrutivo, de esclarecimento, desde que seja usado de uma forma democrática e crítica.”

Para o professor, Jones Manoel consegue aliar essa linguagem midiática ao senso crítico. Mas nem ele nem o formato são os únicos. Vídeos publicados no TikTok, desde que usados como mecanismos políticos com mensagens engajadas, podem ter o mesmo efeito de emancipação. Paulo não tem dúvidas de que uma visão mais científica e crítica, na essência, pode ser prejudicada pela tentativa de engajamento, mas, ao mesmo tempo, ela torna-se acessível àqueles que não têm o tempo necessário para realizar leituras e debates. Assim, pode ser que o debate público não necessariamente se enriqueça, mas ele se afasta da extrema direita. E isso, segundo o professor, “é o que temos para hoje.”

Quem manda é o algoritmo, até nos que resistem

Em dezembro, procurei André Lemos, professor titular da Facom/UFBA, membro da academia de ciências da Bahia e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O objetivo, ainda, era entender o impacto desse modelo de vídeo no debate público meses após a sua viralização, mas também suas transformações de formato ao longo do tempo.

Lemos entende, numa linha parecida com Paulo, que o formato “um contra muitos” é uma espécie de tentativa de resistência, que tenta propor algo diferente ao que se vê normalmente nas redes sociais, pois toma um tempo considerável para a exposição e discussão de questões. O professor, no entanto, se mostra menos otimista quanto a efetividade desses vídeos para uma transformação real do debate.

“Trata-se mais de um espetáculo de sustentação de posições divergentes para um público – que é o público das redes sociais –, estando preso aí também a toda uma dinâmica das lógicas algorítmicas dessa plataforma, ou seja, da lógica da atenção”, pontua. Lemos cita Guy Debord ao explicar uma lógica de imagem pela imagem, onde quem está ali defende sua posição também para reforçar uma persona pública. Desse modo, o formato é pouco eficiente no sentido de instigar o espectador a rever suas posições ideológicas, entender o lugar do outro e estabelecer uma nova concepção política sobre a realidade.

Apesar de reproduzir a lógica de imagem pela imagem, os debates são uma tentativa de resistência
(Créditos: Pexels/Mikhail Nilov/Reprodução)

O que se tem, aos olhos do docente, é uma sobreposição de monólogos que formam um palco de guerra e de luta agonístico, cuja função é a de “sustentação de ideias, no qual a plateia ou o público em geral já está posicionado e vai apenas torcer para que aquele seu influenciador preferido ou celebridade preferida possa ganhar o debate.”

Sobre a transformação do modelo de vídeo nos últimos meses, na direção de pautas mais ligadas ao entretenimento do que ao debate político, Lemos fala da adaptação do formato às plataformas. Essa migração se dá, para ele, “para manter a lógica da atenção, que é a lógica das plataformas digitais”.

O vídeo “1 flamenguista x 15 vascaínos”, publicado pelo canal Gilda Labs em 21 de outubro, conta com mais de 1,1 milhão de acessos. Por outro lado, o conteúdo “1 feminista vs 20 antifeministas, produzido pelo canal Spectrum, alcançou mais de 2 milhões de visualizações desde sua publicação, dia 13 de novembro. Meses após sua viralização, esses vídeos ainda encontram milhares de usuários. E os professores, apesar das discordâncias, parecem concordar que são esses que formam uma tentativa de resistência no limiar do algoritmo.

 

Davi Rocha Daniel é jornalista.

 Publicado originalmente por: Le Monde Diplomatique

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