O que está em jogo não é apenas uma empresa ou um conflito específico, mas a consolidação de um modelo de governo algorítmico que reconfigura a soberania, a guerra e a administração da vida na ordem internacional contemporânea.

Crédito: Pixabay

Ninguém permanece soberano diante do excesso de visão. A Palantir escraviza o julgamento sem exigir lealdade, apenas atenção contínua. Aos poucos, o olhar deixa de ser escolha e passa a ser necessidade. E aquele que consulta a Palantir acreditando vigiar é, na verdade, vigiado. Pois, embora muitos a toquem e dela façam uso, a Palantir serve apenas a um senhor – e esse senhor é Sauron, a vontade sem corpo que governa pelo olhar, cuja força não está apenas na mentira, mas na capacidade de transformar o medo visto em destino inevitável.

Em As Duas Torres, segundo volume do Senhor dos Anéis, Pippin encontra Palantir nos escombros de Orthanc, uma das quatro torres de Isengard, após a derrota do corrompido mago Saruman. Incapaz de resistir ao chamado mudo da pedra, o Hobbit a toma nas mãos durante a noite e olha – e ao olhar, ele também é visto. O olhar do Inimigo o atravessa, o interroga, o marca, e quando Gandalf o arranca da pedra, já é tarde o bastante para que Sauron saiba demais.

Fundada no coração do complexo tecnológico-militar norte-americano, a empresa Palantir Technologies se apresenta como provedora de softwares capazes de integrar volumes imensos de dados dispersos, cruzar informações opacas e oferecer aos seus usuários uma visão totalizante da realidade. Governos, forças de segurança, agências de inteligência e grandes corporações recorrem à Palantir para ver melhor: antecipar riscos, mapear comportamentos, identificar padrões ocultos.

Em Gaza, contratos entre o Ministério da Defesa de Israel e a Palantir proveram o governo sionista com a infraestrutura técnica para coordenar vigilância em larga escala, fusão de dados operacionais e tomada de decisão militar em tempo real, transformando território, população e movimento em variáveis calculáveis e acionáveis dentro de uma lógica de guerra permanentemente administrada. Nos EUA, a Palantir firmou um acordo com o famigerado U.S. Immigration and Customs Enforcement – o ICE, integrando bases de dados federais e privados para rastrear viagens, documentos e locais de pessoas em operações no terreno e fornecendo ferramentas como a plataforma ImmigrationOS para fornecer “visibilidade em tempo quase real” sobre indivíduos sob fiscalização e facilitar a priorização e execução de deportações. Finalmente, a OTAN, adquiriu da Palantir o sistema de inteligência artificial Maven Smart System, uma plataforma que pretende integrar dados de batalha, apoiar fusão de inteligência, melhorar consciência situacional e acelerar planejamento e decisões operacionais em múltiplos teatros de conflito, em um dos processos de aquisição mais rápidos de sua história, sinalizando a adoção de tecnologias de IA de guerra em nível internacional.

No legendário de Tolkien, uma Palantir é um orbe cristalino que permite ao seu usuário observar lugares e acontecimentos distantes por toda a Terra-média. São instrumentos de visão, coordenação e poder usados por governantes para administrar reinos espalhados por vastos territórios. Ainda assim, as pedras são traiçoeiras. Uma Palantir não mente, mas enquadra a realidade de forma seletiva. O que ela mostra depende de quem a controla, de quem olha para dentro dela e de quem mais pode estar olhando de volta – e ele, o senhor das trevas, Sauron, está sempre a olhar.

Esse simbolismo não é acidental. O próprio Peter Thiel já reconheceu a referência a Tolkien. A escolha se encaixa com precisão na autoimagem da empresa: ferramentas para soberanos, generais e Estados, não para o consumo de massas. Instrumentos de coordenação, e, acima de tudo, vigilância. E hoje, todos temos uma Palantir em nossos bolsos: nossos próprios smartphones.

Assim como a Palantír, o smartphone é um objeto aparentemente neutro, portátil, íntimo, sempre à mão, que promete acesso irrestrito ao mundo distante. Por meio dele vemos territórios que não pisamos, acompanhamos guerras, deslocamentos, rotinas alheias, decisões de poder – porém, como na pedra de Tolkien, o ato de olhar nunca é unilateral. O smartphone observa enquanto é consultado, registra enquanto informa, aprende enquanto serve seu verdadeiro senhor.

Ele não mente, mas seleciona; não ordena explicitamente, mas orienta o julgamento por meio de notificações, mapas, feeds algoritmicamente curados e alertas. Quem o utiliza acredita exercer controle sobre a informação, quando na verdade opera dentro de um enquadramento definido por infraestruturas técnicas, interesses econômicos e arquiteturas de vigilância que permanecem fora de alcance.

Tal como Pippin diante da Palantir, o usuário moderno olha movido pela curiosidade, e, ao olhar repetidamente, passa a ser visto, classificado, previsto. O poder não está no aparelho em si, mas no enquadramento – ou perfilamento – do usuário. O enquadramento, nesse caso, é a forma como a pessoa é reduzida a um perfil operacional dentro de um sistema que precisa decidir de maneira rápida, à distância, e com pouca margem para dúvida.  A vida, assim, vira um conjunto de sinais a serem interpretados pela Palantir: ligações entre pessoas, rotas, horários, padrões de compra, histórico de viagem, documentos, geolocalização, posts, contatos, cruzamentos com bases públicas e privadas. E destes sinais, seus padrões permitem inferir a probabilidade de pertencer a um grupo, de estar ligado a alguém, de repetir um comportamento, de aparecer num lugar, de representar risco.

A socialização humana é, hoje, permeada pelo digital. Do momento que acordamos para ver as notícias e ler as mensagens nos grupos de WhatsApp, até o momento que vamos dormir e rolamos o TikTok para relaxar, algoritmos cujo funcionamento desconhecemos controlam qual conteúdo nos é exposto. Esse processo não é passivo: cada clique, pausa, deslocamento ou interação alimenta sistemas de perfilamento, nos quais indivíduos são continuamente reduzidos a padrões de comportamento, probabilidades e categorias de ação, antecipando condutas, respostas e orientando decisões antes mesmo que elas sejam formuladas conscientemente.

Thiel despreza abertamente a democracia, e já afirmou que, como não conseguiria vencer eleições ou convencer maiorias, talvez fosse possível “mudar o mundo unilateralmente, sem ter de constantemente convencer as pessoas, por meios tecnológicos”, substituindo o espaço de deliberação e consenso democrático por arquiteturas técnicas capazes de produzir efeitos diretos sobre o comportamento social. E, nisso, o debate público cede lugar ao cálculo, e a política é reconfigurada como gestão silenciosa de probabilidade, num regime onde não somos convencidos, mas ajustados através da exposição a conteúdos que ressoem com os nossos valores percebidos.

E é aí que o enquadramento se torna político pois o perfil do usuário é em verdade categoria de ação para tomadores de decisões, definindo quem merece atenção, quem entra numa lista, quem é priorizado, vigiado, abordado, bloqueado, deportado, exterminado, ou simplesmente marcado como interessanteProfiling, ou perfilamento, em português, é isso: transformar existência em hipótese através de indicadores em comportamento online, e hipótese em decisão.

A Palantir é, sem sombra de dúvidas, uma das empresas mais importantes para a Geopolítica Internacional ao extrapolar a infraestrutura dura que conhecemos bem (datacenters, matrizes energéticas, etc.) para a infraestrutura de Software e sistemas operacionais que possibilitem o domínio Meta-Trumpista. O poder já não reside apenas na posse de território, de armamentos ou de infraestrutura física, como já é mais óbvio, mas na capacidade de organizar a realidade em algo legível, comparável e acionável à distância. O software não ocupa espaço, não faz ruído, não aparece em imagens de satélite, mas antecede o gesto e orienta a escolha, e ao operar nesse plano, a Palantir se torna a arquiteta do poder, mediando a forma como Estados enxergam e administram populações, conflitos, fronteiras e riscos.

É por isso que falar da Palantir não é falar de sua inegável eficiência, inovação ou técnica, mas de uma empresa que se insere deliberadamente no coração dos processos decisórios mais violentos do sistema internacional, oferecendo meios para tornar a coerção mais rápida, a vigilância mais profunda e a violência mais administrável. Quando a guerra vira dashboard, quando a deportação vira fluxo, quando vidas se tornam variáveis ajustáveis, o mal já não precisa se esconder atrás da mentira: ele opera à luz fria do cálculo. O que está em jogo não é apenas uma empresa ou um conflito específico, mas a consolidação de um modelo de governo algorítmico que reconfigura a soberania, a guerra e a administração da vida na ordem internacional contemporânea.

A Palantir é, nesse sentido, a Palantir sem metáfora. Como a orbe de Orthanc, ela não exige juramento nem fidelidade declarada; basta tocá-la. Não pede crença, apenas dados. Não impõe ordens diretas, apenas oferece visão, e, ao fazê-lo, captura quem olha. Cada uso a fortalece, cada consulta a insere mais fundo no processo decisório, até que o mundo passe a ser organizado segundo a lógica daquele que enxerga mais longe, decide antes e permanece invisível.

Tal como na obra de Tolkien, não se trata de corrupção acidental ou abuso pontual, mas de um artefato cuja função é inseparável de seus efeitos: ampliar o poder de um único olhar enquanto subordina todos os outros àquilo que lhes é permitido ver.

Isabela Rocha é mestre e doutoranda em Ciência Política pelo Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (IPOL UnB), coordena o Grupo de Trabalho Estratégia, Dados e Soberania do Grupo de Estudos e Pesquisas em Segurança Internacional do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (GEPSI IREL UnB) e preside o Fórum para Tecnologia Estratégica dos BRICS+, visando o desenvolvimento de infraestrutura tecnológica íntegra e soberana no Brasil, no Sul Global, nos países BRICS+, e no mundo.

 Publicado originalmente por: Le Monde Diplomatique

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