O ouro extraído em diversas áreas do país é enviado para Roraima, e o Estado está funcionando como um ponto de passagem para o exterior

Resumo da notícia
PF e Anac apreenderam 51 kg de ouro ilegal em avião que mudou rota e pousou em Boa Vista, Roraima, em dezembro de 2025.
Ouro veio de Itaituba (PA); suspeita é que Roraima seja rota para escoar ouro ilegal à Venezuela e Guiana, segundo investigação.
Apreensões em Roraima subiram 368% entre 2024 e 2025; valorização do ouro aumenta extração ilegal e estimula crime organizado.
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Resumo gerado por Inteligência artificial
Uma operação de rotina da Polícia Federal (PF) e da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), em Boa Vista, no dia 2 de dezembro de 2025, acabou revelando indícios de uma nova rota do ouro clandestino no Brasil. Um avião de pequeno porte, que estava sob monitoramento e deveria pousar em uma pista privada nos arredores da capital de Roraima, mudou o plano de voo e aterrissou no Aeroporto Internacional de Boa Vista.
A alteração chamou a atenção dos agentes. Na abordagem, foram encontrados 51 quilos de barras de ouro sem notas fiscais ou qualquer documentação que comprovasse a origem do material. À época, a carga foi avaliada em R$ 36 milhões, valor que pode ser ainda maior diante da valorização recorde do ouro no mercado internacional.
Em depoimento, os ocupantes da aeronave afirmaram que o ouro havia sido embarcado em Itaituba, no Pará, um dos principais polos de comercialização do metal extraído ilegalmente, inclusive de terras indígenas. Eles também relataram já ter realizado outros voos semelhantes entre o Pará e Roraima, mas não informaram quem seriam os proprietários da carga.
Para investigadores e especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, a apreensão reforça a consolidação de um novo fluxo do ouro clandestino no país. Historicamente, o metal extraído ilegalmente, sobretudo da Terra Indígena Yanomami, era enviado a outros Estados para ser “esquentado” com documentos fraudulentos antes de seguir para o exterior. Agora, esse caminho parece ter se invertido.
“Identificamos uma mudança na rota do ouro. Agora, o ouro extraído em outras áreas do país está sendo enviado para Roraima, e o Estado está funcionando como um ponto de passagem para outros países”, afirmou o delegado da PF Caio Luchini.
Dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) corroboram essa avaliação. Entre 2024 e 2025, o volume de ouro apreendido nas rodovias de Roraima cresceu 368%, passando de 22,3 quilos para 104,5 quilos. O número não inclui apreensões realizadas pela PF, como a do avião interceptado em Boa Vista.
A principal suspeita é de que organizações criminosas estejam tentando escoar o ouro ilegal pela fronteira com a Venezuela e a Guiana, aproveitando a proximidade geográfica, a fiscalização menos rigorosa nesses países e uma infraestrutura logística já existente em Roraima, herdada do período de forte atuação do garimpo ilegal na Terra Yanomami.
Tradição garimpeira e mudança de fluxo
Roraima, localizado no extremo norte do país, tem longa tradição garimpeira. A atividade marcou profundamente a história do Estado, que chegou a atrair milhares de trabalhadores de diversas regiões do Brasil, sobretudo para a Terra Yanomami, onde vivem cerca de 33 mil indígenas.
Durante décadas, investigações da PF e do Ministério Público Federal apontaram que parte significativa do ouro extraído ilegalmente nessa região abastecia tanto o mercado nacional quanto o internacional. Para isso, o metal era “legalizado” por meio de notas fiscais fraudulentas emitidas com base em permissões de lavra inexistentes ou localizadas em outros Estados.
Com o endurecimento da fiscalização nos últimos anos, especialmente a partir de 2023, esse esquema passou a enfrentar obstáculos. Entre as medidas adotadas estão a obrigatoriedade da nota fiscal eletrônica para transações envolvendo ouro de garimpo e o fim da chamada “presunção de boa-fé”, declarada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal.
Essas mudanças tornaram mais difícil a lavagem do ouro ilegal no Brasil. Como consequência, o volume exportado pelo país caiu: de 96 toneladas em 2022 para 66 toneladas em 2025, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Crime se adapta à repressão
Com o cerco às estruturas tradicionais de escoamento, grupos criminosos passaram a buscar novas rotas. A delegada da PF Milena Coutinho aponta três fatores principais para essa reorganização: a intensificação das operações contra o garimpo ilegal na Terra Yanomami, as mudanças legais que dificultaram o “esquentamento” do ouro e a existência de uma logística já estruturada em Roraima.
Essa logística inclui pistas clandestinas, pontos de abastecimento de combustível e pilotos experientes na região de fronteira. Além disso, tanto a Venezuela quanto a Guiana apresentam fragilidades na fiscalização do comércio de ouro.
Na Guiana, o garimpo é legalizado e representa uma das principais atividades econômicas do país, o que dificulta distinguir o ouro produzido localmente daquele contrabandeado do Brasil. Já na Venezuela, estudos indicam que a maior parte da produção é ilegal e controlada por redes criminosas e militares, com parte do metal chegando ao mercado internacional por vias clandestinas.
Valorização do ouro aumenta risco
Outro fator de preocupação é a disparada no preço do ouro, que ultrapassou pela primeira vez a marca de US$ 5 mil por onça. Em cenários de instabilidade global, como conflitos internacionais e incertezas econômicas, o metal se torna um ativo de proteção, aumentando a demanda e estimulando tanto a extração legal quanto a ilegal.
“Sempre que há um aumento no preço do ouro, há também na mesma proporção um estímulo à extração do metal — seja em áreas legalizadas ou de forma ilegal”, afirma a pesquisadora Larissa Rodrigues, do Instituto Escolhas.
Para as autoridades, as apreensões recentes são um alerta. “O crime se adapta rapidamente às mudanças. O papel do Estado é acompanhar essa dinâmica e intensificar a fiscalização”, destaca o delegado Caio Luchini.
*Com informações da BBC Brasil.
Visto antes e,: GGN
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