é impossível resolver os problemas “internos” da Venezuela desconsiderando o que faz ou deixa de fazer o governo Trump. O que por óbvio inclui o sequestro de Maduro e Cilia
Por Valter Pomar (*)

No dia 5 de fevereiro, Lula deu uma entrevista ao UOL.
Em certo momento, a entrevistadora perguntou sobre a Venezuela.
A resposta de Lula está aqui: https://m.youtube.com/watch?v=g5T4IWLynUg
“Tecnicamente” Lula está certo: a “preocupação principal” é a situação interna da Venezuela, as condições de vida do povo, o funcionamento democrático das instituições etc.
Nesse sentido, trazer Maduro e Cilia de volta não é a “preocupação principal”.
Mas tem um “detalhe”, que Lula omitiu ou pelo menos minimizou demais em sua resposta: os problemas da Venezuela não são apenas internos. A Venezuela – como Cuba – é vítima permanente de uma brutal ingerência externa.
Não se trata de “briga de compadre”. Um “compadre” não entra na casa do outro, bombardeia, mata, sequestra duas pessoas, ameaça voltar e fazer mais barbáries se o outro “compadre” não fizer o que lhe foi ordenado.
Por isso, é impossível resolver os problemas “internos” da Venezuela desconsiderando o que faz ou deixa de fazer o governo Trump. O que por óbvio inclui o sequestro de Maduro e Cilia.
Neste sentido, a declaração de Lula foi “tecnicamente” correta, mas politicamente errada.
O erro “principal”, na minha opinião, é que a ingerência dos EUA deve ser condenada explicitamente, inclusive porque fomos, somos e seremos vítimas dela.
Mas há também um erro “secundário”: a declaração à UOL passou para algumas pessoas uma ideia muito ruim, a de que Lula esqueceu tudo que Maduro fez em favor do Brasil, quando Lula foi “sequestrado” pelo sistema judiciário brasileiro
Naquela época Maduro poderia ter feito o que fizeram, inicialmente, muitos “governos e partidos amigos”: dizer que a ilegalidade cometida contra Lula era um assunto “interno” do Brasil, que o “principal” era o “funcionamento normal das instituições”. Mas não foi isso o que Maduro fez, como sabemos todos nós que dirigimos a campanha Lula Livre.
Claro que solidariedade é algo desinteressado. A pessoa que é solidária não deve esperar retribuição pelo que fez. Assim, também “tecnicamente” falando, Lula não tem absolutamente nenhuma obrigação de retribuir a imensa generosidade que Maduro demonstrou naquela época.
Mas na diplomacia e no senso comum, a falta de reciprocidade causa muito incômodo. Especialmente para quem percebe a influência objetiva que duas decisões recentes do nosso governo – em relação as eleições de 2024 na Venezuela e em relação aos BRICS – tiveram no ocorrido dia 3 de janeiro.
Espero que o presidente Lula leve tudo isto em consideração em suas próximas declarações a respeito da Venezuela. O secundário às vezes não é tão secundário assim.
(*) Valter Pomar é professor e diretor da FPA
Publicado originalmente por: Página 13
Postar um comentário
-Os comentários reproduzidos não refletem necessariamente a linha editorial do blog
-São impublicáveis acusações de carácter criminal, insultos, linguagem grosseira ou difamatória, violações da vida privada, incitações ao ódio ou à violência, ou que preconizem violações dos direitos humanos;
-São intoleráveis comentários racistas, xenófobos, sexistas, obscenos, homofóbicos, assim como comentários de tom extremista, violento ou de qualquer forma ofensivo em questões de etnia, nacionalidade, identidade, religião, filiação política ou partidária, clube, idade, género, preferências sexuais, incapacidade ou doença;
-É inaceitável conteúdo comercial, publicitário (Compre Bicicletas ZZZ), partidário ou propagandístico (Vota Partido XXX!);
-Os comentários não podem incluir moradas, endereços de e-mail ou números de telefone;
-Não são permitidos comentários repetidos, quer estes sejam escritos no mesmo artigo ou em artigos diferentes;
-Os comentários devem visar o tema do artigo em que são submetidos. Os comentários “fora de tópico” não serão publicados;