Declaração do presidente mostra que ele sabe muito bem uma regra fundamental do jogo político: o poder deve ser encenado
Vingador é o vilão de ‘Caverna do Dragão’, desenho muito popular nos anos 1980 e início dos 1990 | Foto: reprodução
O narcisista Johnny Bravo: o excesso de confiança o faz, muitas vezes, ser ridicularizado | Foto: reprodução
Ao estudar a sociedade balinesa, Geertz percebeu que o poder deve ser encenado. Encenado para ser compreendido. Encenado para ser exercido. Duvido muito que o nosso presidente tenha lido a obra de Geertz, mas certeza que já assistiu ao desenho do Johnny Bravo como nos confidenciou.
Fato é que com o desenho animado, talvez o presidente tenha chegado à mesma conclusão de Geertz: o poder deve ser encenado. Entendeu, por certo, seu papel como protagonista. Suspeito, porém, que a intenção de Bolsonaro não seja interpretar o musculoso e tolo personagem loiro do desenho. Acredito que em sua mente, sua atuação se aproxime mais a do tirano rude, paranoico e rodeado de inimigos malignos dispostos a usurparem sem poder. Nesta trama, os únicos a quem o protagonista pode confiar é a família real, formada pela bela rainha e pelos três intrépidos filhos e sucessores. Algo como o Vingador da “Caverna do Dragão”, se é para usar a cultura pop como referência. Um enredo conhecido e fácil ser entendido.
Pois é a esse enredo que Bolsonaro tem recorrido ao proferir seus recentes ataques à imprensa, à Justiça, à memória dos mortos pela ditadura. Ao recorrer a esse papel e a esse enredo, o presidente apela a seu público, que, fiel, o reconhece como o mocinho da história. É a esse público inflamado por teorias da conspiração, nas quais haveria um perigo comunista em curso no Brasil de 2019, que o personagem-Bolsonaro busca anuência em seus rompantes verbais e em suas posturas autoritárias.
Neste teatro, grandes baluartes democráticos como a imprensa livre, o Judiciário e mesmo a ciência são vistos como os vilões, dispostos a sacarem o mocinho de sua missão redentora. Há quem já tenha visto esse filme. Há quem tenha medo do final.
*Silvia Gonçalves é jornalista, cientista social e doutoranda pela UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora)
Ponte Jornalismo


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